A Funcart possui seis turmas de dança e três de teatro que integram a Rede da Cidadania, projeto social da Secretaria Municipal de Cultura. Crianças e adolescentes do Conjunto Maria Cecília, Jardim Franciscato, Vila Portuguesa, Jardim União da Vitória e Jardim Santa Fé.
Os alunos dos projetos sociais têm a oportunidade de conhecer outros grupos, no projeto Conexão Dança, e entrar em contato com a mágica do espetáculo, que conquista afetivamente (e definitivamente) os mais indecisos.
Integrando o projeto Rede da Cidadania, no Conjunto Maria Cecília (zona norte), o curso de iniciação à dança aglutina jovens em fase de identificação do corpo e da descobertas do outro. O primeiro desejo: mexer o corpo. Ao extravasar energia concentrada, as adolescentes do Maria Cecília partem para estudos coreográficos, baseados em relatos de vida delas, coordenados pelo bailarino Danilo Alves, 20 anos.
Aqueles que se sobressaem, são convidados a participar da Escola Municipal de Dança. Dos 300 integrantes que participaram em 2001, 20 talentos foram encaminhados para EMD. Desse total, 15 não puderam prosseguir por falta de condições financeiras. Faltava o passe para o transporte diário e até mesmo uma alimentação adequada para suprir corpos que gastam tanta energia.
O garoto Willian Schonhofer Teixeira foi pinçado do microcosmo do Jardim João Turquino. Aos 10 anos, os professores encontraram um garoto talentoso e vocacionado, com atitudes interior e exterior de um bailarino. Ele recebe o apoio do núcleo de convivência do bairro onde mora, para de alimentação e transporte. ''Desde que comecei aqui no balé, estou mais concentrado também na escola'', diz Willian, estudante da 4 série. Em casa, recebe o incentivo dos pais. No primeiro dia de aula, a timidez tomou conta. Afinal, era o único garoto em meio a uma sala repleta de meninas. ''Aqui nada é complicado'', afirma. A barreira do idioma do francês que dá nome aos movimentos do balé clássico é a única dificuldade do pequeno bailarino.
As jovens da turma de iniciação à dança do Maria Cecília se sentem mais confiantes como cidadãs. A dança atinge diretamente a auto-estima, energizando as mais fragilizadas. Dos seis pontos da Rede da Cidadania, na área da dança, a Funcart possui 87 alunos.
No programa, uma das novidades é o contato com a diversidade rítmica do Brasil, transitando nos diversos estilos apresentados nas aulas. Além da busca pela inserção social pelo viés da arte e cultura, procura-se oferecer um eixo para as relações interpessoais. Segundo informa a coordenadora do projeto da área de dança, Carina Corte, se a turma deixa transparecer uma agressividade comportamental, o trabalho é direcionado para a compensação, no caso, trabalha-se o toque, a sensibilidade.
Às 14 horas, as garotas chegam à sala de dança do Centro Esportivo do Conjunto Maria Cecília. A sala não possui as adequações técnicas necessárias, como o piso de madeira. Com a roupa do dia-a-dia, pés descalços, elas buscam novas sensações com o toque do corpo na parede de tijolos aparente. Uma atitude comum entre todas: quando chegam em casa repetem o aprendizado para algum familiar ou até mesmo para o espelho. Eidy Luana da Silva, 16 anos, chegou a sonhar que dançava. No sonho, a jovem estava num palco com um figurino preto-e-branco. Diante da platéia lotada, Eidy caiu. A mãe da garota a acordou antes dos aplausos finais. Esse desejo inconsciente impulsiona a vontade de dançar. O pai de Eidy é evangélico e não gosta dessa atividade da filha. ''Me sinto um pouco triste com isso'', revela.
Ilcélia Dias da Silva, 17 anos, considera que a dança lhe confere uma sensação de poder. ''A gente esquece o que acontece em volta'', diz. Para Janaína Moura, 15 anos, dançar trouxe calma. ''Era muito estourada'', diz, sempre sorrindo. Tímida, voz baixa e olhar desconfiado, Cassiane Amaro, revela que a mãe a inscreveu no curso e depois a comunicou. De todas as garotas, foi a última a se soltar. ''Mas foi bom se mexer'', diz.
Corporalmente, as garotas adquiriram outra postura e a reboque começaram a se posicionar e a pensar de forma diferente. ''A dança também ajuda a enfrentar os medos. Cada aluna criou uma partitura de movimentação, uma maneira de usar sua gestualidade'', observa o professor Danilo Alves.(F.F.)

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