CONDOMÍNIO CULTURAL
Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
Depois de 15 anos vivendo fora de Curitiba dez somente em São Paulo e o restante no Rio de Janeiro, devido ao contrato com a TV Globo o ator Luís Melo está voltando à terra natal. Ele não especifica a data em que chega de mala e cuia, mas já comprou apartamento com vista para o Bosque do Papa. Será o meu quintal, brinca. Na capital irá trabalhar no Instituto Arte Cênica, núcleo voltado à pesquisa teatral criado por Melo em sociedade com a atriz Nena Inoue e o cenógrafo Fernando Marés. Além disso, trabalhará também com a Companhia Polaca de Teatro.
Amigos desde os tempos do CPT (Curso Permanente de Teatro), no Teatro Guaíra, os três têm a mesma visão e inquietação artísticas. Assim como há experiências fora do eixo Rio/São Paulo, exemplos do Grupo Galpão (teatro) e do Grupo Corpo (dança), ambos de Belo Horizonte, e do Armazém, que deixou Londrina para se estabelecer no cenário carioca, o mesmo pode acontecer em Curitiba.
Aliás, vai acontecer porque o processo está em andamento desde a tarde de um dia qualquer de dezembro de 99, quando os três amigos decidiram-se pela empreitada, durante uma conversa na varanda da casa de Fernando Marés, na Lagoa do Conceição, em Florianópolis. Deixaram de lado a lengalenga de planos inacabados e partiram de vez ao encontro do que era um sonho protelado. Ali o Instituto Espaço Cênico passou a existir, com todas as possibilidades de ser um centro gerador de arte.
O mote é o teatro, mas nada impede que outras manifestações artísticas contribuam no fervilhar da criação. A idéia é a construção de um condomínio cultural, agregando em seu meio livraria, artes plásticas, tapeçaria, o que vier, no local de ensaios e oficinas. O tecido cultural forma-se com essa variedade e não em guetos, aquela coisa compartimentada de um lado uns, de outro lado outros, cada qual na sua. A mistura pode gerar ótimas surpresas.
Para Luís Melo o retorno ao berço representa uma necessidade orgânica, a busca da felicidade. Como acredita na intuição, sabe que o momento para a realização é agora, apesar das inquietações dos amigos paulistas e cariocas. Você vai conseguir viver novamente na cidade? Não tem medo do esquecimento? Ele garante que medo não tem, porque o que está lhe fazendo falta hoje é justamente tranquilidade, condições de recolhimento para poder estruturar e implantar essa semente de uma coisa que a gente não sabe bem no que possa resultar.
O ator quer passar adiante a experiência acumulada durante toda uma década sobre o teatro de pesquisa, até mesmo para abrir espaço dentro de si para o novo. Ele se diz mal-acostumado pela convivência que teve com Antunes Filho, em São Paulo, com seus exercícios diários, a disposição de jogar fora tudo o que aprendeu, começar do ponto zero, servir de cobaia para as experimentações, saber controlar a ansiedade, que é um mal constante.
Enfim, o artista tem que baixar sua bola, trabalhar em cima do seu ego, diz, porque quanto mais fica exposto, mais é solicitado e o resultado disso é a falta de tempo para se dedicar ao trabalho, como deter-se nos textos que lhe são enviados. A mídia te coloca numa posição em que você muito mais responde a essas solicitações do que na realidade tem esse tempo de recolhimento, afirma.
Mas tem o outro lado da questão: sem proposta de trabalho o ator entra em crise, se sente abandonado, vai para o analista. Afinal, esse é o seu ganha-pão, e qualquer indício de esquecimento remete diretamente às finanças. Melo é objetivo: Antes de envelhecer mais, vou aproveitar a fase mais produtiva e de exposição para poder ter minha opção. Nesses momentos é que você tem que ter firmeza daquilo que se propõe. Eu quero, preciso experimentar, sei que isso vai me trazer tranquilidade.
Empenhado no projeto, que se materializou no Espaço Cênico, que Nena Inoue mantém há dois anos, atrás de uma estufa de bananas, no bairro do Pilarzinho, Luís Melo e os sócios estão discutindo as reformas que deverão ter início em breve. Até aí, tudo bem. O mais difícil é selecionar as pessoas, confessa, embora aposte na auto-seleção, ou auto-iluminação. De qualquer modo só vai integrar o projeto quem tiver a ideologia do grupo.
Isso não quer dizer que a companhia estará voltada a uns poucos eleitos. O espaço se manterá aberto tanto para atores com anos de estrada interessados em se reciclar, como aos jovens em busca de novas linguagens. Terá vários núcleos de pesquisa, segundo Melo. Ele conta que no momento estão sendo selecionados textos para dramaturgia ou fonte de pesquisa. Do acervo, é claro, não poderiam faltar os contos de Anton Tchecov.
Oficialmente o Instituto Espaço Cênico abrirá suas portas no início do segundo semestre, mas não será um empreendimento voltado unicamente à praça de Curitiba. Pelo contrário estará aberto para a cidade e para fora, assim como aceitará aquilo que vier de outros lugares, numa troca permanente de informações.
Também para não haver procura desenfreada de interessados devido à presença do ator global, algumas medidas serão tomadas, como a formação do núcleo sem a presença de Melo. Acredita-se que assim haverá uma depuração natural do quadro de candidatos, pois é óbvio que muitos aparecerão por achar que basta estar perto do artista para obter atestado de qualidade. As pessoas se iludem, não é assim. Tudo tem que ser conquistado; você vai ser aquilo que almeja dentro do investimento que você faz, e do esforço para conquistar. Nada será de graça dentro desse espaço, afirma.
As atividades na cidade não afastarão Luís Melo do Rio de Janeiro, por uma razão lógica, ele mantém seu emprego na TV Globo (dentro de algumas semanas começa a gravar minissérie sob a direção de Walter Avancini; e recentemente esteve em Portugal, onde gravou uma microssérie dirigida por Guel Arraes, que tem o título provisório Caramuru A Invenção do Brasil).
No futuro até pode se desligar da emissora, mas agora é impossível. Hoje em dia a gente necessita estar na mídia para facilitar um pouco, principalmente na fase de implantação, explica. Com projetos específicos do Instituto Espaço Cênico e da Companhia Polaca de Teatro, o trio espera encontrar patrocinadores, mas se não conseguir, paciência. O projeto acontecerá da mesma forma. Não vou cruzar os braços e dizer que só vou abrir esse espaço se tiver patrocínio. Nem teatro faço assim se tem patrocínio, faço, e se não tem faço do mesmo jeito, avisa. Daí que o crescimento será compatível dentro de sua realidade. Muitas vezes a gente vai ter que mostrar um resultado disso, para depois poder ter um apoio.
Antecipando as primeiras montagens que poderão surgir, Melo aponta para algumas possibilidades como adaptações dos contos de Tchecov e um trabalho sobre As Mil e Uma Noites. São coisas mais coletivas, explica. Porém, um projeto que o persegue há anos traz como tema a proximidade do homem com o cão. Essa relação tem me perturbado e quero começar a pesquisar, porque fala muito da solidão humana e a importância que o animal está tendo, comenta.
Outra de suas observações é de que a afetividade é a grande ausente dos espetáculos. Está faltando nas montagens, mesmo no trabalho dos atores, essa coisa da poesia. Quando falo em poesia, quero dizer trabalhar com mais delicadeza, com humanização. Procurar primeiro o eixo para depois entrar na forma. Com esses elementos que traduzem de modo sutil a alma humana, Luís Melo quer colorir, ou permear, seus próximos projetos.O ator Luís Melo volta a Curitiba para encampar projetos voltados para o teatro mas que podem se estender a outras artes
Márcio ScatrutLuís Melo está convicto dos projetos que vai realizar em Curitiba: Se tem patrocínio eu faço, e se não tem, faço do mesmo jeitoMárcio ScatrutAs atividades em Curitiba não devem afastar o ator da Rede Globo e do Rio de Janeiro





