Concurso valoriza o ensino das profissões
Jovens de Londrina estão em centro de treinamento em Brasília, onde se preparam para a WorldSkills, maior competição de educação profissional do mundo
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 23 de abril de 2019
Jovens de Londrina estão em centro de treinamento em Brasília, onde se preparam para a WorldSkills, maior competição de educação profissional do mundo
Marian Trigueiros - Grupo Folha 
A história do processo educacional formal no Brasil atravessou fases distintas ao longo do último século, baseadas, principalmente, nas políticas governamentais pautadas em questões econômicas e sociais. Por isso mesmo, durante os anos, houve ampliação e readequação dos modelos existentes: do Infantil para o Básico, passando pelo incentivo do Ensino Técnico ao Ensino Médio. Todos continuam existindo, porém, com alteração de formato e expressividade.
Mais recentemente, diante do aumento de instituições de Ensino Superior e números de cursos, o acesso ao mercado de trabalho, de certa forma, também se alterou. Uma das consequências, a grosso modo e sem entrar no mérito de melhor método, fez que o Ensino Técnico voltasse a ser rediscutido na última década visando o fortalecimento e qualificação do trabalho de base da indústria.
Se em épocas anteriores este tipo de ensino já foi até considerado como programa de caridade voltado aos jovens em situação de vulnerabilidade social, hoje, é defendido como necessário por muitos especialistas em educação para a formação de alto nível, nos chamados profissionalizantes. Tanto é que houve uma retomada significativa na oferta de cursos técnicos em todo Brasil. Impulsionados em grande escala pelo Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego), implantado pelo Governo Federal em 2011, a maioria das ofertas atuais são de acordo com as necessidades de profissionais do país, como mecatrônica, manutenção de aeronaves e redes de computadores. Neste sentido, o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial do Paraná) tem investido numa grade com perfil da área tecnológica do ramo industrial.

Um dos resultados numerados pela instituição tem sido a maior empregabilidade e participação do país em competições importantes de educação profissional do mundo, como a “Worldskills”. Este ano, cinco jovens do Paraná estarão entre os integrantes da delegação brasileira de um total de 59 estudantes. Destes, três são de Londrina e já estão em Brasília para passarem quatro meses no centro de treinamento do Senai. Isso porque, a competição, cuja 45ª edição será realizada na Rússia em agosto, vai reunir alunos de todos os continentes para disputarem em modalidades correspondentes às suas profissões da indústria e do setor de serviço. Serão mais de 1,5 mil competidores de 70 países em 53 ocupações técnicas. Na última edição, o Brasil ficou em segundo lugar no ranking.
Segundo Vanessa Frason, gerente de Educação Profissional do Sistema Fiep, os alunos selecionados para o centro de treinamento e que vão participar da competição foram escolhidos de acordo com o potencial mostrado em projeto que aliou parte comportamental, psicológica, atendimento da família, além das habilidades específicas, requisitos bem similares a um treinamento esportivo. “Isto para que o aluno possa aguentar esse momento de pressão que é uma competição internacional, com tempo determinado, com parâmetros de análise de avaliação e competidores do mundo todo. Fizemos esse projeto com todos os alunos que passaram da fase estadual para a nacional e fomos com uma delegação para o nacional”, explica.
COMPETIDORES
Um dos selecionados de Londrina foi Lucas Constancio Lenzi, que já está em Brasília no centro de treinamentos. Ele sempre estudou em escola pública e, junto com o Ensino Médio, realizou o curso de “Manutenção de Computadores” pelo Senai. “No início, tinha a ideia de terminar o curso e, na sequência, ingressar na faculdade de Design Gráfico, pois, com o conhecimento de manutenção, já saberia arrumar computadores ao abrir minha empresa”, lembra. Os planos mudaram no decorrer de um ano quando a professora o convidou para participar de uma competição. “Eu já estava estudando sobre cabeamento estruturado e me 'encontrei' nessa área. Hoje, trabalho com a estrutura física de uma rede, como fibra óptica, por exemplo.”

Desde que entrou no ramo, os campos se abriram e, agora, o jovem de 19 anos se prepara intensamente para representar o Brasil na categoria “Redes de Cabeamento Estruturado”, na qual precisa projetar e construir uma rede física para comunicação de dados, por meio de cabos, permitindo a passagens de sinais elétricos e óticos. “Essa minha área é algo que tem crescido muito rápido e tenho certeza que, para ser um bom profissional, o ritmo de aprendizado tem que ser frenético”, diz ele, falando sobre a rotina puxada de atividades e estudos de 10 horas diárias. “Às 6h da manhã temos atividade física obrigatória e às 7h30 saímos para o centro de treinamentos.”
O jovem Leandro Ribeiro Moreira acaba de embarcar para a capital brasileira para se reunir ao grupo. A categoria dele foi criada pela competição há pouco tempo, a “Computação em Nuvem”, na qual terá que arquitetar e implementar a infraestrutura de TI em um ambiente de nuvem público, migrando o armazenamento externo e propondo soluções que melhor atendam às necessidades das organizações. “Todo o treinamento em Brasília desenvolvido em cenários reais de grandes empresas, o que vai me preparar mais ainda para a competição e para o mercado de trabalho no futuro”, conta ele, que trancou a faculdade de Ciência da Computação para se dedicar exclusivamente ao treinamento e à competição. Ele sempre estudou em escola pública e, durante o Ensino Médio, ingressou no Ensino Técnico, ao mesmo tempo, no curso de “Informática”.
A categoria na qual vai participar, segundo ele, é uma área em ascensão no país, e, por isso, o jovem está otimista com a participação na competição. “Quanto mais o país se destacar na área, mais os olhares se voltarão para os futuros profissionais e, até mesmo, investimentos de recursos para fomentar ainda mais o setor aqui no país”, resume.
Atualmente, além da graduação, ele leciona em cursos técnicos no próprio Senai. Entre os cinco paranaenses, ainda está a jovem londrinense Isabele de Lara da Silva, que vai competir na categoria “Tecnologia da Moda”, na qual terá de criar peças de roupas envolvendo design, modelagem, corte e manufatura, além da finalização das peças.


