Concordância nominal: é necessário
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de outubro de 2004
Maria Tereza de Queiroz Piacentini 
Desculpem a nossa falha
''Como tenho lido e ouvido versões várias, pergunto: o certo é desculpe o transtorno ou desculpe pelo transtorno? O Houaiss cita como exemplo desculpe a insistência, enquanto Sacconni abomina desculpe a nossa falha. O que faço?'' Marcelo, Recife/PE
Ora, ora, que intransigência. Pois o Padre Vieira, nos seus famosos ''Sermões'' (1679), já usava o verbo desculpar como transitivo direto: ''Por isso já desculpa a ingratidão dos homens com a sua ignorância''. Os exemplos clássicos e atuais são inúmeros nesse sentido. Pode o leitor amigo confiar e continuar a dizer:
- Desculpe o atraso.
- Desculpe a insistência.
- Desculpem o pouco conforto no nosso flat e fiquem à vontade.
- Desculpa o mau jeito!
- Desculpa a minha fraqueza, podes?
- Desculpem as brincadeiras.
- Peço que vocês desculpem nossos amigos pelos excessos cometidos.
- Queira desculpar a falta de urbanidade dos colegas.
- A boa senhora estava sempre disposta a desculpar os outros.
- Desculpe, não ouvi bem, pode repetir?
É bom notar que a forma ''desculpe'' é o imperativo da terceira pessoa (VOCÊ), e ''desculpa'' é da segunda, isto é, refere-se a TU. Ao empregar ''desculpem'', estamos falando com mais de uma pessoa: ''vocês desculpem/desculpem vocês''. Essas são formas usuais de polidez, para justificar ou minimizar a falha cometida.
Essas fórmulas ou frases de desculpas também poderiam ser usadas pronominalmente, ou seja, com o pronome átono e uma preposição, tipo:
- Desculpe-me pela demora.
- Desculpe-me por insistir no assunto.
- Desculpa-me por ter te chamado assim tão cedo.
- Não vou desculpá-lo por tanto atraso!
- Desculpem-me pelos erros que deixei passar no texto.
No entanto, até por comodismo, costuma-se deixar pronome e preposição de lado. Aliás, observe-se que falamos da preposição POR na versão acima, atual. Já nos exemplos registrados em dicionários antigos e novos a preposição encontrada é DE, e também COM quando se trata de ''alegar ou pretextar como desculpa'':
- O visconde abriu a porta da sala imediata, culpando-se e desculpando-se da demora.
- Desculparam-se de só chegar àquela hora.
- Tornou o mineiro a desculpar-se da insuficiência e mau preparo da comida.
- Teresa, desculpando-se com o cansaço, arrancou-se ao martírio de não poder chorar em silêncio.
* * *
''Na frase: 'Muito caros Fulano, Beltrano e Sicrano'. A dúvida é relativa ao emprego das palavras 'Muito caros'. E o porquê dessa utilização'' A.R., Paranaíba/MS
O emprego da expressão ''muito caros'', embora raro, está correto. O adjetivo plural ''caros'' está no lugar de ''queridos''. Seria assim:
- Fulano, Beltrano e Sicrano são queridos.
- Fulano, Beltrano e Sicrano são muito queridos.
- Fulano, Beltrano e Sicrano são muito caros.
Isso corresponde a dizer, no início de um discurso ou de uma correspondência:
- Meus caros amigos...
- Meus amigos muito caros...
- Meus muito caros amigos...
- Muito caros [amigos] Fulano, Beltrano e Sicrano.
* Diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros ''Só Vírgula'', ''Só Palavras Compostas'' e ''Língua Brasil Crase, pronomes & curiosidades'' www.linguabrasil.com.br


