Uma experiência que deverá fazer parte do trivial no futuro, ganha ares de ineditismo mundial nesta noite, às 20h30, no Canal da Música, em Curitiba. A Orquestra Sinfônica do Paraná, sob regência de Jamil Maluf, estará executando um concerto histórico onde, pela segunda vez em todo o mundo, um conjunto sinfônico une-se aos sons produzidos por um computador. A máquina, entronizada no palco, será a solista do espetáculo.
O ‘‘Concerto para Computador e Orquestra’’, de Rodolfo Coelho de Souza, foi apresentado pela Orquestra Experimental de Repertório, no mês passado, em São Paulo. O compositor afirma que a execução com a OSP terá uma versão ‘‘mais completa’’ daquela realizada na capital paulista. ‘‘Aqui estamos com melhor equipamento de som. Enfim, Curitiba está no topo do mundo em termos de vanguarda tecnológica musical’’.
Graças a ousadia de Souza e Maluf o Brasil saiu à frente com este pioneirismo artístico. Em agosto de 1999 os dois se encontraram e Souza propôs criar uma peça dentro de um gênero ainda inédito. ‘‘Escreva que eu toco’’, foi a resposta do regente. Um ano depois, o resultado está no palco. A OSP executará também ‘‘Ritual’’, de Lindembergue Cardoso e ‘‘Quadros de uma Exposição’’, de Modeste Mussorgsky.
Com uma carreira de 25 anos, Souza é autor de uma obra ‘‘num certo sentido tradicional, porque escrevo música para instrumentos convencionais’’. Paulistano, 38 anos, formado pela USP e com mestrado na Escola de Comunicação e Artes, da mesma instituição, doutorou-se recentemente em composição, com especialização em eletroacústica na University of Texas, em Austin. Conquistou vários prêmios, entre eles a Bolsa Vitae de Composição, que lhe possibilitou dedicar-se um ano para a criação do ciclo ‘‘Tristes Trópicos’’.
Explica o autor que o Concerto para Computador e Orquestra traz uma música ‘‘progressiva’’. ‘‘Tem muito ritmo, muito colorido instrumental, não é monótona, do ponto de vista de instrumentação’’, argumenta. É marcante o sentido da integração: ‘‘O material às vezes está na orquestra, às vezes no computador, e eles trocam os materiais’’, diz. O jogo sonoro não chega a ser aleatório; ainda segundo o compositor existe uma harmonia no conjunto.
Ele também explica que não sentiu a propalada frieza da máquina, unindo-a a uma orquestra. Isso porque os sons com que trabalha não são pensados de maneira fria. ‘‘Eles são criados com uma intenção expressiva. Então essa intenção existe desde o momento da criação; e em particular, com a fusão instrumental que está sendo feita junto, o que existe é uma ilusão virtual’’. Na estréia mundial, em São Paulo, parte do público reclamou que não ouviu o computador tocar, embora ele estivesse constantemente em uso. O resultado gerado entre os sons ‘enganou’ involuntariamente os espectadores. ‘‘Isso para mim foi altamente gratificante’’.
A tecnologia chegou a um grau de evolução que até as nuances podem ser criadas virtualmente. Até dez anos atrás isto era impossível, a música soava mecânica. Hoje, porém, consegue-se trabalhar ‘‘até o mínimo detalhe da inflexão, da articulação, da dinâmica, da sutileza de interpretação’’, afirma Souza. Porém, para chegar a este resultado é preciso um tempo longo, metódico, detalhado.
Foi quase um ano de trabalho num estúdio de música eletrônica para criar os 20 minutos da peça. Em média foram 20 horas semanais dedicadas não só à composição, como ainda ao estudo e pesquisa de cada som, para chegar ao acabamento pretendido. ‘‘Tudo que está ali foi calculadamente pensado até o mínimo detalhe. Às vezes perdia um dia inteiro para realizar cinco segundos de música.’’.
O computador pode substituir o virtuose? Para Rodolfo Coelho de Souza isso é impossível no repertório tradicional. ‘‘Eu nunca faria um concerto de Bach, de Brahms, de Beethoven usando um computador. Não tem o menor sentido’’. O artista questiona, sob o ponto de vista musical, a presença da máquina numa obra que foi pensada originalmente para ser executada por um virtuose.
‘‘Na hora em que se automatiza, mesmo que o som seja perfeito, você destruiu uma parte importante da estética da obra que é a hora da virtuosidade. No momento em que você fica sabendo que é um computador fazendo Bach, acaba a graça’’. Diz o compositor que quando escreve um concerto para computador e orquestra, ele transfere a aura da virtuosidade para a orquestra. ‘‘O solista no computador tem outra função que é criar o novo, abrir uma sonoridade virtual que não existe na música instrumental’’, sustenta.
O Concerto para Computador e Orquestra é dividido em três movimentos: o primeiro tem o berimbau como tema; o segundo é um scherzzo, no sentido tradicional, com um som carnavalesco beirando o surrealismo e o terceiro – finale – ‘‘é um momento de improvisação’’, num diálogo da orquestra com o computador.
Como frisa seu autor, a obra não é uma clonagem de sons, nem da cultura americana que espalhou a era virtual para o mundo. ‘‘Estou usando o instrumental que me deram para criar algo que tenha sentido para a minha cultura. Não quero fazer papel de americano’’, finaliza.
‘‘Concerto para Computador e Orquestra’’, de Rodolfo Coelho de Souza, ‘‘Quadros de uma Exposição’’, de Mussorgsky e ‘‘Ritual’’, de Lindembergue Cardoso estão no programa da Orquestra Sinfônica do Paraná, sob regência de Jamil Maluf. Hoje, dia 11, às 20h30, no Canal da Música (Rua Júlio Perneta, 695, em Curitiba. Fone 335-6062). Ingressos: R$ 5,00.

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