Concerto celebra o fim da ditadura em Portugal
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domingo, 23 de abril de 2000
Por João Luiz Sampaio 
São Paulo, 24 (AE) - A Sala São Paulo será palco, amanhã (25) à noite, de uma celebração pelos 26 anos da Revolução dos Cravos, que pôs fim ao período da ditadura salazarista, em Portugal. A meio-soprano portuguesa Dulce Cabrita apresenta, ao lado do pianista brasileiro Acchile Picchi, canções do compositor lusitano Fernando-Lopes Graça.
No programa estão presentes, também, canções tradicionais portuguesas e brasileiras, além da "Cantata dAbril Op. 144", de Achille Picchi, composta especialmente para esse concerto, que conta com a participação da Banda Sinfônica Juvenil do Estado de São Paulo, do Coral Adventista de São Paulo e do tenor brasileiro Lenine Santos, dirigidos pelo maestro Fábio Gomes de Oliveira.
Na primeira parte do concerto, serão interpretadas canções para piano e solista vocal, que têm como ponto de partida a poesia de poetas portugueses, como Gil Vicente (Cual Es la Niña), Fernando Pessoa (O Menino de Sua mãe), Luís de Camões (Alma Minha Gentil Que te Partiste), Sophia de Mello Andressen (Ressurgiremos) e Carlos de Oliveira (Terra e Céu), além de "Cinco Bagatelas para Piano", peças para piano-solo.
Também estão programadas canções tradicionais brasileiras e portuguesas, como "Eu Fui à Terra do Bravo", da região dos Açores, e "Xangô", canto de feitiçaria brasileiro. "Trata-se de um concerto com melodias populares, muitas delas conhecidas pelo público em geral", indica Dulce que, no ano passado editou três CDs com gravações que fez com Lopes-Graça ao longo de quase 30 anos de colaboração.
Já na segunda parte, a Banda Sinfônica Juvenil do Estado de São Paulo e o tenor Lenine Santos se juntam a Dulce na interpretação da "Cantata dAbril Op. 144", composta por uma abertura e cinco movimentos, que narra a trajetória do povo português desde a instituição da ditadura até, 48 anos depois, o fim do período salazarista. "A abertura, densa e dissonante, indica o clima de tensão na década de 20 e mostra que algo está por acontecer enquanto o último movimento, intitulado "Liberdade", narra não só o fim da ditadura como as consequências que esse fato teria, por exemplo, no processo de abertura política brasileira", resume o maestro. Ditadura - Morto em 1994, Lopes-Graça foi um dos principais compositores portugueses do século 20, além de intelectual reconhecido pela sua luta contra a ditadura. Suas obras, que constantemente resgatam elementos do folclore e da música tradicional, encontraram alguns problemas com o governo de Oliveira Salazar, sendo, muitas vezes, proibidas. "Certa vez, fiz um concerto com Lopes-Graça em Barreiro, no qual carros da Guarda Civil ficaram, durante toda a apresentação, rodeando o local onde nos apresentávamos", lembra Dulce, que conheceu o compositor há mais de 30 anos. "Aprendi muito com ele, não só sobre sua música, mas sobre cultura em geral", afirma.
Uma das peças mais importantes do compositor, que desenvolveu, também, a atividade de regente e crítico musical e literário, é o "Réquiem", composto em homenagem às vítimas do fascismo. O concerto de amanhã à noite é uma realização do Centro Cultural 25 de Abril, instituição que promove intercâmbio cultural entre brasileiros e portugueses e que, em julho, foi uma das responsáveis pela realização da Semana do Cinema Português. Serviço - Concerto 25 de Abril. Regência de Fábio Gomes de Oliveira. Terça, às 20 horas. Grátis (retirar convites meia hora antes do espetáculo). Sala São Paulo. Praça Júlio Prestes, s/n.º
tel. 3351-8000


