Curitiba - Não adianta reclamar. Quem quer mudar a situação, não pode perder tempo com verborragias e deve partir logo para ações. E é isso que os músicos integrantes da Orquestra Sinfônica do Paraná estão fazendo. Cansados de esperar retorno do governo e investimentos em um dos corpos estáveis do Centro Cultural Teatro Guaíra, um grupo de músicos decidiu fundar uma nova orquestra: a Filarmônica do Paraná. O concerto de estréia acontece na próxima quinta-feira com dois objetivos específicos: mostrar a qualidade do trabalho dos músicos e principalmente tentar seduzir possíveis empresários interessados em patrocinar o novo grupo. Pois a diferença entre uma orquestra sinfônica e filarmônica, está justamente na origem dos recursos.
Enquanto a sinfônica é mantida com recursos estatais, a filarmônica conta com verba da área privada para sua manutenção. E é nesse filão que os músicos estão apostando tanto como alternativa de emprego como na possível execução de um maior número de apresentações e experiências com maestros convidados. Para este primeiro concerto, regido por Roberto Tibiriçá, todos os músicos estão investindo, incluindo o maestro. Os cerca de 70 profissionais envolvidos abriram mão de cachê e vão dividir a bilheteria.
''A gente quer mostrar que o Paraná tem espaço para uma orquestra filarmônica'', argumenta José Maria Magalhães Silva, um dos mentores da criação do grupo. Há 20 anos tocando na Orquestra Sinfônica do Paraná, Zé Maria, como é conhecido, salienta que o Estado não tem um programa de investimento constante na música erudita, apesar de ter ótimos músicos. ''Com a Orquestra Filarmônica queremos divulgar o trabalho dos músicos e fazer com que o Paraná seja reconhecido no mercado nacional e internacional'', vislumbra.
Para dirigir a Filarmônica do Paraná, Zé Maria convidou o maestro carioca Roberto Tibiriçá, que acumula experiências de regência na música erudita, além da criação de outros grupos no Brasil. Foi fundador, por exemplo, das orquestras Nova Filarmônica, que entre outros artistas acompanhou Luciano Pavarotti; da Nova Sinfonieta e da Orquestra de Câmera Da Capo.
Tibiriça analisa que a Filarmônica do Paraná surge num momento difícil da cultura nacional, quando as verbas estatais estão cada vez mais minguadas. Ele lembra que no 1º Fórum das Orquestras que ocorreu em 2002, em Brasília (a segunda edição do evento, nunca aconteceu), o governo federal listou a existência de 124 orquestras em todo o Brasil. Noventa e oito por cento delas são ligadas ao governo. ''Como as orquestras dependem dos recursos das cidades e estados a que estão ligadas, os músicos acabam abandonados, a mercê da burocracia.
E foi por ir contra a esse tipo de situação, que Tibiriça aceitou ''correr o risco'' de dirigir a Orquestra Filarmônica do Paraná. Ainda que o primeiro concerto seja um investimento dos músicos, a orquestra já tem planos bem definidos para o próximo ano. Já inscreveu um projeto na Lei Rouanet - Lei Federal de Incentivo à Cultura que prevê a realização de 12 concertos ao longo de 2006. Mas não são apenas apresentações. A orquestra que investir na formação de platéia e dos própios músicos. Tanto que o projeto, intitulado ''Os mais lindos concertos românticos'', quer trazer dez dos regentes mais consagrados do Brasil.
A grade começa com a participação de Nelson Freyre e passa por Arnaldo Cohen, Cristina Ortiz, Antonio Menezes, Joshua Bell e Sarah Schang. Prevê também dois concertos extras, uma apresentação multimídia com Ana Botafogo e uma ópera. ''O repertório previsto é bastante eclético e se baseia muito na experiência dos solistas e regentes'', diz Tibiriçá. Esse naipe de solistas, aliás, dificilmente seria bancado por uma orquestra mantida com recursos estatais.
A verba estimada para o projeto é de R$ 2 milhões para a realização de concertos ao longo de um ano. Orçamento considerado utópico quando o assunto é música clássica.'''É justamente por isso que estamos apostando na Orquestra Filarmônica do Paraná. Para o povo paranaense será uma oportunidade única de reunir esses solistas'', conclui o maestro. A orquestra terá 70 músicos. O mesmo número de profissionais se reúne na próxima quinta-feira para o concerto inaugural da Filarmônica.
No programa constarão peças de Carlos Gomes (''Fosca''), Chopin (''Concerto para Piano e Orquestra n.º 2'', com solo da pianista Sônia Goulart) e Tchaikowsky (''Sinfonia n.º 5'').

Serviço:
- Orquestra Filarmônica do Paraná. Dia 3 de novembro às 20h30, no grande auditório do Teatro Guaíra (Guairão). Ingressos: R$ 60,00 (platéia), R$ 40,00 (1º balcão) e R$ 20,00 (2º balcão). Para quem doar 1 quilo de alimento não-perecível, 50% de desconto, com ingressos aos preços de R$ 10,00 até R$ 30,00.

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