Comunidade se une para proteger capela
PUBLICAÇÃO
domingo, 15 de novembro de 1998
Érika Pelegrino 
Do alto de uma colina, há 40 anos, a capelinha em sua singeleza protege a comunidade que se avista da torre sinaleira. Antes dela, em 1936, pioneiros que chegaram na região do distrito do Espírito Santo construíram uma igreja de madeira. Quase 20 anos depois, os moradores viram a necessidade de construir um templo de alvenaria.
O trabalho na época era difícil. Sem as facilidades tecnológicas de hoje, muitas pessoas carregaram pedras, literalmente, para erguer a Capela do Divino Espírito Santo. Passaram-se 40 anos e poucos reparos foram feitos neste período. Uma pintura aqui, algum reparo no forro ali e o tempo se encarregou de ir deteriorando a capelinha.
Há duas semanas, a construção chegou ao seu limite e teve que ser interditada pelo Corpo de Bombeiros para não colocar em risco os fiéis que, duas vezes por semana, assistiam à missa. Alguns chegaram a falar em derrubar a igreja e construir uma nova. Mas a maioria da comunidade saiu em defesa da Capela do Divino Espírito Santo que há décadas a protege.
A necessidade de se revitalizar a capelinha mobilizou os moradores do Distrito do Espírito Santo. Há dois anos, a comunidade já havia procurado a Divisão do Patrimônio Histórico-Cultural da Secretaria Municipal de Cultura, que solicitou um projeto de revitalização ao Centro Tecnológico de Urbanismo da Universidade Estadual de Londrina.
Segundo a gerente de Patrimônio, Vanda Moraes, o projeto ficou pronto há um ano, mas a falta de recursos impediu que a revitalização fosse realizada. Inscrevemos o projeto na Lei Municipal de Incentivo à Cultura, mas não foi aprovado, afirma Vanda Moraes. Com a interdição da igreja, algumas questões começaram a ser levantadas. Por que não tombar a capela? E as condições da construção permitem a revitalização ou é necessária a demolição?
A arquiteta Maria Luiza Marques Dias, coordenadora do Patrimônio Cultural da Secretaria Estadual de Cultura, esteve no distrito e respondeu às indagações da comunidade. Segundo ela, são poucos os municípios que possuem uma lei municipal de tombamento. A lei de tombamento é estadual e federal, explica.
De acordo com esta lei, uma construção só é considerada patrimônio histórico e tombada quando possui características arquitetônicas marcantes, como o caso da antiga rodoviária de Londrina que foi tombada e hoje abriga o Museu de Arte de Londrina; ou quando tem um significado simbólico e histórico relevante para a comunidade e o Estado como um todo.
Quando esta importância é só para a comunidade local, o tombamento não é possível e o poder local deve ter mecanismos próprios de proteção. De acordo com Maria Luiza Dias, a Capela do Divino Espírito Santo não apresenta as características necessárias para o tombamento, mas tem sua importância. Na sua singeleza ela tem uma força arquitetônica bastante grande, afirma. Além disso, cumpre sua função de igreja e simbolicamente é como se protegesse a comunidade, complementa.
Quanto à condições físicas da construção, a coordenadora de Patrimônio Cultural, em uma breve avaliação afirma não ter visto nenhum dano que justifique a demolição. É preciso consertar o telhado e refazer o forro, além de fazer a consolidação das paredes que apresentam fissuras, explica. Mas aparentemente não há nenhum problema de fundação, já que o piso está perfeito.
A comunidade já está conseguindo recursos - é necessário cerca de R$ 40 mil para a revitalização - embora ainda espere uma resposta oficial do Ippul. Segundo Vanda de Moraes, do Patrimônio Histórico-Cultural da Secretaria Municipal de Cultura, a prefeitura irá colaborar oferecendo mão-de-obra.
Sérgio Vanzo explica que a grande importância em se preservar a Capela do Espírito Santo está nos valores histórico e sentimental que ela encerra. Temos que preservar o trabalho das pessoas que a construíram. Foi um trabalho difícil naquela época, afirma. O padre André Bedrowski, há um ano e meio naquela paróquia, explica que sua grande preocupação é com a segurança dos fiéis.
Para ele, deve ser feito o que os recursos permitirem. Ele admite a importância em se preservar a capelinha, e espera que isto seja possível. Ao que tudo indica, a Capela do Divino Espírito Santo vai continuar protegendo a comunidade, com sua singela imponência no alto da colina.


