Comunidade deve ter mais informações sobre sítios históricos, defendem especialistas
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terça-feira, 12 de outubro de 1999
Por Angela Lacerda 
Recife, 13 (AE) - O brasileiro não pode encarar o patrimônio histórico como o mundo desenvolvido, já que a sua preocupação básica é com a sobrevivência. Mas é justamente pelo uso, envolvimento e consequente valorização do patrimônio que ele pode tornar-se um meio de sobrevivência para as comunidades. Esse foi o tema central da Conferência Internacional sobre Patrimônio Histórico e Desenvolvimento, que reuniu, no Recife, durante quatro dias, especialistas britânicos e brasileiros, numa promoção do The British Council, governo de Pernambuco e prefeitura do Recife.
Para esses profissionais, o ponto de partida para que o patrimônio seja encarado como oportunidade de desenvolvimento econômico é a ampliação do seu conceito, que não deve limitar-se à obra construída. "Não é a estrutura do patrimônio em si, mas a sua função o que o valoriza", afirmou Brian Bath, do escritório de consultoria The Visual Connection, em Londres, especializado na apresentação e interpretação do patrimônio. "O patrimônio não se restringe ao concreto, mas também às histórias de quem nele morou, trabalhou, os fatos ocorridos no local".
Nas visitas a pontos turísticos de Pernambuco incluídas na programação da conferência, por exemplo, os convidados estrangeiros e nacionais constataram a total falta de informação sobre os sítios históricos. "O visitante precisa entender por que aquele prédio ou ambiente está sendo conservado", observou Bath. Na visão da gerente de Projetos da instituição escocesa Highland Interpretive Strategy Project, Rona Gibb, os profissionais brasileiros envolvidos com o patrimônio também compartilham a percepção de que o patrimônio histórico e cultural é compreendido não somente pela construção, mas pela vida nativa, pela paisagem e pelas pessoas.
Por isso, acredita que uma das prioridades do trabalho dos especialistas nacionais deve ser a educação e o envolvimento das comunidades com o patrimônio. O patrimônio histórico não deve ser preservado apenas para ser olhado como um corpo estranho, algo que nada tem a ver com a vida das pessoas. "O patrimônio deve fazer parte da rotina das comunidades, ser usado por elas", defendeu a gerente de Projetos e Intercâmbio do British Council, Roberta Kacowicz. "É dessa forma que ele será valorizado e preservado".
"O brasileiro não dá valor ao seu patrimônio porque a comunidade não se sente dona dele", reforçou Stela Murta, da empresa de consultoria especializada em interpretação de ambientes para visitação turística, Território Brasilis. Para ela, o momento é propício ao surgimento de associações de amigos do patrimônio e defende que as ações relativas ao patrimônio devem contar com governo, iniciativa privada, população. Stela também prega o investimento na formação de quadros locais.
"Quem constrói a paisagem urbana é a mão-de-obra informal", ressaltou. "Daí ser preciso aprender um novo tipo de planejamento com a comunidade e oferecer cursos para os mestres de obra e pedreiros, por exemplo". Currículo - A Conferência Internacional apresentou várias sugestões para o fortalecimento do patrimônio histórico no Brasil. Algumas delas: investir na educação patrimonial e inseri-la no currículo escolar; informar o significado do lugar a ser preservado ou restaurado para que se possa compreender o significado da sua conservação. Também fazem parte das sugestões: fazer do patrimônio um dos instrumentos de construção da cidadania; estreitar as relações com as instituições que possam contribuir para o desenvolvimento de trabalhos que promovam a preservação dos bens culturais e ainda usar a mídia como meio para se conhecer o patrimônio, embora ela não substitua o contato direto com o local.


