Buscar melhorar a cobertura da mídia em relação aos direitos da criança e do adolescente foi um dos temas discutidos dentro do projeto ''Mídia e Conselhos Aliança Estratégica na Prioridade Absoluta aos Direitos das Crianças e Adolescentes'', realizado nos dias 13 e 14 de junho, em Curitiba. O evento, que reuniu cerca de 60 participantes, entre conselheiros tutelares, de direito e jornalistas da região sul, foi realizado pela Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi) e o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda). Os trabalhos foram conduzidos pela Oficina de Imagens, agência integrante da Rede Andi, em Minas Gerais, e teve como organização parceira dessa ação no Paraná a Central de Notícias dos Direitos da Infância e Adolescência (Ciranda). A iniciativa também prevê o desenvolvimento de uma guia de comunicação, que será distribuído em todo o País, para aprofundar conceitualmente o tema e reunir recomendações para o aprimoramento da cobertura. Na ocasião, foi distribuído aos participantes um material impresso sobre mídias e conselhos informando sobre o papel da imprensa, o que é comunicação, como ser uma fonte qualificada e como formar um banco de pautas.
Desde o início dos debates ficou evidente que ainda há muitas dúvidas sobre o funcionamento dos veículos de comunicação e o conteúdo do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que no dia 13 de julho comemora 13 anos em vigor. Para diminuir os conflitos de comunicação, foi sugerida a inclusão do sistema de garantia de direitos da infância e da adolescência na formação de nível superior, mais rigor no cumprimento da ética na mídia, melhorar a articulação entre os conselhos para evitar informações desencontradas e melhorar a sistematização de dados.
Na avaliação de uma das coordenadoras da Ciranda, Lilian Romão, a oficina é uma oportunidade positiva de ''confrontar opiniões''. ''A mídia, normalmente, é acusada de sensacionalismo pelos conselheiros, mas cabe aos dois lados conhecerem as suas respectivas realidades de trabalho e descobrirem a melhor forma de fazer uma cobertura eficiente'', salientou. Para ela, a participação da imprensa vem melhorando nos últimos anos e é cada vez mais importante mostrar a interdependência entre os setores: ''É pela imprensa que o trabalho dos conselheiros é reconhecido, divulgado e multiplicado''.
Entre as críticas apontadas pelos conselheiros em relação à mídia está a superficialidade na abordagem sobre os direitos da infância e da adolescência, sem contextualização, e a não divulgação de ações para a solução do problema, muitas vezes, até por desconhecimento de que projetos nesse sentido existam.
Outra reivindicação foi sobre a falta de cuidado com os termos utilizados pela mídia. Alguns termos citados foram ''menor'' e ''prostituição infantil''. O primeiro termo, na opinião dos conselheiros, remeteria pejorativamente a ''menor infrator'', a uma posição ''inferior'' dessas pessoas, já o segundo, daria a idéia, errônea, de que a ''criança se prostitui'', quando, na verdade, a criança é que é prostituída. O termo correto deveria ser ''exploração sexual infantil''.
Durante a oficina, foram formados grupos de estudos para avaliar exemplos de trabalhos em impresso, rádio e televisão, que abordaram a temática da infância e adolescência. Entre os trabalhos avaliados, estava a reportagem especial da Folha de Londrina sobre o trabalho infantil, veiculada no dia 27 de abril, data em que se comemora o Dia da Trabalhadora Doméstica. ''Campanha combate o trabalho infantil'', elaborada pela jornalista Luka Morais, destacou a situação de 500 mil crianças e adolescentes brasileiras que trabalham como domésticas no Brasil, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT). A pouca incidência de denúncia nos conselhos tutelares, o trabalho infantil em áreas rurais, a concentração de vítimas de exploração sexual na fronteira Argentina/Brasil/Paraguai e programas na cidade que buscam evitar o trabalho infantil também foram abordados no material jornalístico. Esse tema será novamente debatido nos dias 27 e 28 de junho, em Curitiba, em novo encontro entre conselheiros e jornalistas.
O conselheiro tutelar Douglas Santos, de Fazenda Rio Grande (Região Metropolitana de Curitiba) considerou a oficina bastante esclarecedora.''Nunca tive preconceito contra jornalistas, mas não sabia que há jornalistas com interesse nessa questão. É importante participarmos desse tipo de evento para melhorar a comunicação, pois há uma dependência. Acredito que o que faltou na educação e na cultura para melhor compreender o ECA, a mídia poderá remediar'', destacou.
A assessora técnica do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Cascavel (cidade-pólo/Oeste), Cleonice Ravázio, também aprovou a iniciativa. ''A aproximação dos conselhos com a mídia é importante para que a comunidade em geral possa colaborar com as ações, como a luta contra a exploração sexual infantil. As pessoas ainda têm muitas dúvidas sobre a aplicação do ECA e isso gera muitos conflitos.''

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