Ler vai muito além de decodificar letras e signos e no Colégio Marista de Londrina desde o ano passado os alunos do nono ano e do ensino médio estão participando de um trabalho mais efetivo na área do letramento. O objetivo é ampliar o repertório de leitura dos alunos e realmente capacitá-los para que possam fazer uso da habilidade da leitura de forma mais competente e plena.
A proposta não envolve apenas as aulas de Português e todos os professores estão sendo motivados a incluir na sua prática pedagógica essa nova abordagem do texto, o que favorece também uma leitura de mundo mais eficiente e leva em consideração o desenvolvimento do senso crítico do aluno.
"É um trabalho em conjunto que incentiva a capacidade de pensar do aluno. De modo geral, os alunos precisam sair do comodismo, da zona de conforto que estão acostumados e isso é trabalhoso no começo, mas depois do estranhamento inicial, eles passam a gostar dessa nova forma de estudar e percebem na prática o resultado positivo. Todo texto tem uma função social", explica Márcia Chireia, professora e coordenadora de Português e responsável pela implantação da iniciativa.
Uma das orientações do trabalho é aproveitar temas da atualidade para motivar o interesse do estudante em ampliar a discussão do assunto. "Sempre digo aos alunos que eles não podem ler os textos de forma ingênua. É preciso ter senso crítico, perceber as intenções do texto, do autor, contextualizar as informações e ter argumentos para se posicionar, pensando nas causas e consequências", destaca Márcia. "Essa abordagem não é uma tarefa fácil e devido a isso se percebe que muitas escolas não fazem um trabalho efetivo de letramento, embora muitas afirmem o contrário, dizendo que desenvolvem habilidades e competências de leitura", pontua a educadora.

AULA PRÁTICA
Na aula de Português de uma turma do segundo ano do ensino médio foi possível observar como essa forma de abordagem é dinâmica. A partir da frase da campanha "#somostodosmacacos", aproveitando o clima de Copa do Mundo, a professora conduziu um amplo debate sobre a hashtag que foi destaque nas redes sociais e trouxe à tona o tema do preconceito racial.
Tendo como linhas condutoras do debate o que é "ideal, possível e imaginário", os alunos puderam pensar nas mais diferentes nuances do preconceito/racismo e o quanto/como é possível mudar essa realidade. Uma das ideias sugeridas foi a de que é possível fazer intervenções pontuais e começar a mudança a partir de si mesmo.
Outra sugestão que ganhou apoio da maioria foi a de fazer um vídeo sobre o assunto e compartilhá-lo na rede social. "A escola, como uma instituição, não deve se calar e podemos ter voz ativa; ativando uma cadeia, influenciando um grupo", afirmaram alguns alunos. A professora também lembrou que uma das funções da escola é mostrar o que acontece na realidade para "descortiná-la" e incentivar a reflexão dos alunos.
Até o escritor Machado de Assis, que era neto de escravos, foi citado na discussão, por costumeiramente ser denominado no meio literário de "negro de alma branca". Diversos exemplos práticos de estigmas e rótulos sociais vivenciados pelos próprios alunos de origem árabe, japonesa e negra serviram para enriquecer o debate.
Com o auxílio de data show, vídeos, anúncios publicitários e imagens relacionadas ao tema do preconceito também fizeram parte da aula que utilizou a leitura de diversos tipos de texto para ampliar o repertório dos alunos. Como parte da atividade, os alunos ainda deveriam ler como tarefa de casa um artigo de opinião da revista Placar, intitulado "#somostodosmacacos?", de Breiller Pires, publicado em 28 de abril de 2014, e redigir uma resposta argumentativa deixando claro o ponto de vista deles.
Os critérios de avaliação envolvem desde justificativas convincentes, emprego de padrões da escrita, texto com coesão e coerência, organização de ideias até a elaboração de proposta de intervenção coerente e significativa para os problemas abordados.

PAIS
"O objetivo do trabalho é dar voz ao aluno e o professor letrador deve atuar como moderador. Infelizmente o excesso de conteúdo do sistema educacional brasileiro acaba por não favorecer esse tipo de prática", observa Márcia. O letramento também está envolvendo a participação dos pais, já que uma recente pesquisa interna do colégio apontou um baixo índice de leitura entre as famílias dos alunos. "Na reunião de pais, mostramos que o trabalho é um desafio que envolve a todos e é preciso ter coerência entre o que se fala e faz", conclui a professora.

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