São Paulo, 14 (AE) - Para a criação da trilha sonora do filme "São Paulo, a Symphonia da Metrópole" - exibido pela primeira vez em 1997 -, que será mostrado amanhã e domingo no Sesc Pompéia, em São Paulo, os compositores Livio Tragtenberg e Wilson Sukorski ficaram três dias dentro de um estúdio, apenas criando sons. Eles estavam centrados no objetivo de, por meio da música, contar ao vivo a história das trilhas sonoras para o cinema. O que está por trás dessa intenção musical bastante definida, mas não burocrática, é a forma, no mínimo interessante
de compor dos dois autores.
Os dois compositores, que vão lançar a nova trilha sonora, são os responsáveis pela sonoridade dos filmes de Tata Amaral, entre eles "Através da Janela", que estréia em maio. A trilha do filme terá uma versão em disco e também será lançado pelo selo dos dois, Demolições Musicais. Assim como os filmes de Tata se firmam no cinema nacional, o dois estão fazendo o mesmo, mantendo sua liberdade estética e estruturando o mercado de trilha de cinema no Brasil.
"Reproduzimos os passos das pessoas, o bafo da cidade, a campanhia que toca", conta Tragtenberg, em entrevista à reportagem. "Percebe-se o efeito da sonoridade do passado até chegar à sonoridade de hoje; tudo vai evoluindo ao longo do dia e a música vai se deslocando da função de imitação sonoplástica e ganha uma autonomia crítica". Isso é bastante claro, segundo Tragtenberg, na sequência da penitenciária.
"Há nesse filme, o registro de uma penitenciária na qual o principal slogan é o de que ali o homem era recuperado; eles se vestiam na época com aqueles uniformes de filme americano, tudo apontava para esse fim", informa o compositor. "Aos olhos de hoje, a imagem é chocante e a música puxa até para um lado emotivo, justamente para enfatizar o que se esperava da penitenciária e no que a idéia inicial se transformou".
A música, composta de instrumentos estranhos, foi gravada em um estúdio amplo, com seis canais, como se fosse um dolby ao vivo, pelo fato de o filme ser todo artesanal. Como naquele tempo não existiam recursos de manipulação de imagem nas fases posteriores às filmagens, tudo tinha de ser feito enquanto as cenas estavam sendo rodadas. "Em um trecho, eles colocaram um jogo de lentes dentro da câmera que possibilitou um efeito de caleidoscópio", explica o compostitor.
"Usamos ventiladores industriais voltados para a platéia, ou seja, trabalhamos com as ingenuidades da época, criando até uma coisa de parque de diversão sensorial para platéia". Assim, os dois passeiam pela sonoplastia do cinema mudo e evoluem até chegar a uma música crítica.
Quem chamou Tragtenberg e Sukorski para fazer a trilha foi Tânia Savietto - que já morreu -, na época diretora da Cinemateca Brasileira. Ela teve a preocupação de restaurar o filme, que estava se perdendo. A parceria foi proposta ao Sesc, que tornou possível a recuperação do filme. "Em 1997, fizemos algumas apresentações e foi maravilhoso; havia de garotada ao pessoal mais idoso, uns para reconhecer-se no filme e outros para conhecer o que foi São Paulo".
Crescimento urbano - As reações a partir da nova exibição prometem ser intensas. "A Symphonia da Metrópole" é um filme mudo, narrado por letreiros bem-humorados. Dirigido por Rudolpho Lusting e Adalberto Kemeny, esse filme de 1928 retrata o processo de industrialização crescente da cidade no fim dos anos 20.
A trilha sonora será tocada ao vivo, com instrumentos convencionais, ruídos gravados e sucata, o que se torna o fundo ideal para as imagens que mostram fábricas, estradas e prédios sendo construídos, carros antigos andando sobre os trilhos dos bondes (que ainda circulavam) e pedestres.
O trabalho de restauração exigiu equipamentos sofisticados, cuidado e, sobretudo, paciência. Os negativos do filme, lançado em 1929, desapareceram e a matriz usada pela Cinemateca e pelo Sesc já é uma cópia reduzida da primeira versão.
Tragtenberg afirma que a apresentação no sábado e no domingo terá algumas mudanças. "O corpo será o mesmo, mas não podemos nos ater a reprodução apenas", acredita. "Precisaríamos de dois anos de ensaio para chegar àquela sonoridade, mas o fato é que tudo mudou, a cidade sofre constantes mudanças e a música incorporou isso".
As sessões de exibição foram gravadas ao vivo e posteriormente retrabalhadas em estúdio, resultando neste CD agora lançado pelo selo Demolições Musicais. A distribuição será feita pela Internet pelo site www.alternetmusic.com.br. Serviço - "A Symphonia da Metrópole". Amanhã (15), às 21 horas; domingo, às 18 horas. R$ 3,00 e R$ 6,00. Sesc Pompéia. Rua Clélia, 93, tel. 3871-7700.

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