Acostumada a frequentar repertório variado, que vai de Mozart a Schoenberg, Clara Sverner já havia se dedicado às obras de Chiquinha Gonzaga em 1980 - época em que a maestrina repousava no esquecimento. A instrumentista volta a homenagear a compositora com o disco ‘‘Chiquinha Gonzaga por Clara Sverner’’, lançado pela Abril Music.
O álbum traz uma boa perspectiva do nome que ajudou a abrasileirar ritmos como a polca, o tango e a mazurca. A música estrangeira frequentava os salões, no final do século passado, enquanto a sonoridade popular ficava restrita a nichos periféricos, ambientes considerados impróprios para mulheres. Chiquinha Gonzaga aproximou os dois extremos com originalidade.
As vantagens da interpretação de Sverner são várias: as composições não trazem aquele tempero de raridade arqueológica, tratamento comumente dispensado à autora - pelo contrário, no piano competente de Sverner apresentam atualidade melódica para um repertório oriundo do século passado. Algumas obras muito conhecidas, como ‘‘Ó Abre Alas’’, ficaram de fora, para privilégio de músicas pouco executadas.
No álbum afloram tangos brasileiros, como o belíssimo ‘‘Água do Vintém’’; valsas como ‘‘Heloísa’’, ‘‘Saudade’’, ‘‘Animatógrapho’’; o maxixe ‘‘Amapᒒ, que abre o disco; a conhecida polca ‘‘Atrahente’’ e curiosidades como a dança chinesa ‘‘Pehô-Pekim’’ e a ‘‘Marcha Fúnebre’’. A única faixa composta no século 20 é o dobrado ‘‘Em Guarda!’’.
Clara Sverner estudou no Conservatório de Genebra e no Mannes College of Music de Nova York. O conhecimento técnico enriquece a interpretação e se torna evidente na intensidade variável da acentuação das melodias. Chiquinha Gonzaga recebe um tratamento profissional, nem maior nem menor do que o dispensado a compositores considerados eruditos.
Se por um lado Gonzaga recebeu atenção recente na mídia, com direito a minissérie romanceada, por outro sua música permanece desconhecida do grande público, com exceção de algumas obras. A compositora é muito comentada, mas suas músicas continuam longe de serem ouvidas com a atenção necessária. Sem falar no grande número de obras inéditas guardadas na SBAT - Sociedade Brasileira de Autores Teatrais -, localizada no Rio de Janeiro e fundada por Chiquinha, que armazena grande quantidade de partituras que permanecem desconhecidas.
Alguns discos estão saindo para resgatar a obra da maestrina - e o trabalho de Clara Sverner vem enriquecer a lista -, mas ainda é pouco perto do que Chiquinha Gonzaga tem para oferecer. Talvez fosse um bom momento para a mídia desviar o foco da personalidade libertária e ressaltar sua seriedade como instrumentista, regente e compositora.

mockup