Compositora é levada a sério
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quarta-feira, 26 de maio de 1999
Ranulfo Pedreiro 
Acostumada a frequentar repertório variado, que vai de Mozart a Schoenberg, Clara Sverner já havia se dedicado às obras de Chiquinha Gonzaga em 1980 - época em que a maestrina repousava no esquecimento. A instrumentista volta a homenagear a compositora com o disco Chiquinha Gonzaga por Clara Sverner, lançado pela Abril Music.
O álbum traz uma boa perspectiva do nome que ajudou a abrasileirar ritmos como a polca, o tango e a mazurca. A música estrangeira frequentava os salões, no final do século passado, enquanto a sonoridade popular ficava restrita a nichos periféricos, ambientes considerados impróprios para mulheres. Chiquinha Gonzaga aproximou os dois extremos com originalidade.
As vantagens da interpretação de Sverner são várias: as composições não trazem aquele tempero de raridade arqueológica, tratamento comumente dispensado à autora - pelo contrário, no piano competente de Sverner apresentam atualidade melódica para um repertório oriundo do século passado. Algumas obras muito conhecidas, como Ó Abre Alas, ficaram de fora, para privilégio de músicas pouco executadas.
No álbum afloram tangos brasileiros, como o belíssimo Água do Vintém; valsas como Heloísa, Saudade, Animatógrapho; o maxixe Amapá, que abre o disco; a conhecida polca Atrahente e curiosidades como a dança chinesa Pehô-Pekim e a Marcha Fúnebre. A única faixa composta no século 20 é o dobrado Em Guarda!.
Clara Sverner estudou no Conservatório de Genebra e no Mannes College of Music de Nova York. O conhecimento técnico enriquece a interpretação e se torna evidente na intensidade variável da acentuação das melodias. Chiquinha Gonzaga recebe um tratamento profissional, nem maior nem menor do que o dispensado a compositores considerados eruditos.
Se por um lado Gonzaga recebeu atenção recente na mídia, com direito a minissérie romanceada, por outro sua música permanece desconhecida do grande público, com exceção de algumas obras. A compositora é muito comentada, mas suas músicas continuam longe de serem ouvidas com a atenção necessária. Sem falar no grande número de obras inéditas guardadas na SBAT - Sociedade Brasileira de Autores Teatrais -, localizada no Rio de Janeiro e fundada por Chiquinha, que armazena grande quantidade de partituras que permanecem desconhecidas.
Alguns discos estão saindo para resgatar a obra da maestrina - e o trabalho de Clara Sverner vem enriquecer a lista -, mas ainda é pouco perto do que Chiquinha Gonzaga tem para oferecer. Talvez fosse um bom momento para a mídia desviar o foco da personalidade libertária e ressaltar sua seriedade como instrumentista, regente e compositora.


