Composição de veterano da Mangueira integra repertório do show "As Cidades"
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quarta-feira, 14 de abril de 1999
Por Mauro Dias 
São Paulo, 15 (AE) - No carnaval do ano passado, a Mangueira homenageou Chico Buarque de Holanda. Em retribuição, o compositor fez uma música (não foi a primeira) em homenagem à escola - "Chão de Esmeraldas", uma parceria com Hermínio Bello de Carvalho que foi gravada no disco "Chico Buarque de Mangueira", cuja venda ajudou a financiar o carnaval mangueirense.
No disco havia outras homenagens à escola, escritas por admiradores, e algumas pérolas compostas por gente de lá mesmo - pelos sambistas que se reúnem na quadra para mostrar sambas novos e lembrar a história musical gloriosa da verde e rosa de Cartola e Nelson Cavaquinho.
Uma de tais pérolas era "Capital do Samba", de autoria de Zé Ramos, esteio da comunidade da mangueira, um dos mais antigos integrantes de sua velha-guarda. Zé Ramos é muito pouco conhecido fora da Mangueira. Aos 86 anos, ainda faz samba por diletantismo - é uma opção, como conta na entrevista abaixo. No disco "Chico Buarque de Mangueira", é a velha-guarda que, respeitosamente, canta "Capital do Samba".
Mas Chico Buarque achou que a composição do veterano sambista seria uma bela introdução para o seu "Chão de Esmeraldas", e incluiu a música no roteiro do show "As Cidades", em cartaz no Palace. É um samba que ele conhece "imemorialmente", como conta: "Lembro-me de ouvi-lo no rádio, ainda menino, acho que ali pelos anos 40; lembrava-me da primeira parte, a segunda tive de aprender novamente".
A letra diz: "Chegou a capital do samba/ Dando boa noite com alegria/ Viemos apresentar o que a Mangueira tem/ Mocidade, samba e harmonia/ Nossas baianas com seus colares e guias/ Até parece que eu tô na Bahia/ Até parece que eu tô na Bahia/ Da cidade alta da Mangueira/ Avisto a vila, sinto saudades de alguém/ Até parece que estou em São Salvador/ Avistando o que a Bahia tem/ É a minha maior alegria/ Até parece que eu tô na Bahia".
"É um samba-de-roda, que os mangueirenses cantam lá entre eles", diz Chico, que chegou a cantar o samba nos shows especiais que fez para o lançamento do disco "Chico Buarque de Mangueira". A letra, escrita no fim dos anos 30, leva diretamente aos primeiros tempos do samba do Rio, cujas figuras centrais eram negros que haviam migrado da Bahia.
A interpretação de Chico Buarque para a música de Zé Ramos tornou-se um dos momentos mais emocionantes do show "As Cidades". É uma reverência de amor, de sambista para sambista, de mangueirense para mangueirense. Menos que engrandecido pela interpretação de Chico (embora o seja), o samba engrandece o compositor, pela humildade com que abraça a obra alheia e homenageia a cultura popular.
"Capital do Samba" é a segunda das duas músicas do show "As Cidades" que não leva assinatura de Chico Buarque. A outra é "Sem Você", de Tom Jobim, que Chico canta ao violão, em comovida homenagem ao maestro, seu mestre e ídolo maior.
Os versos de "Capital do Samba" preparam o espírito da platéia para os de "Chão de Esmeraldas", que soam a seguir: "Me sinto pisando/ Um chão de esmeraldas/ Quando levo o meu coração a Mangueira/ Sob uma chuva de rosas/ Meu sangue jorra nas veias/ E tinge um tapete para ela sambar/ É a realeza do samba que quer se mostrar/ Soberba, garbosa/ Minha escola é um cata-vento a girar/ É verde, é rosa/ Í abre alas para a Mangueira passar".


