Curitiba - Não é difícil encontrar na literatura, música ou dramaturgia um texto capaz de explicar o ciúme, sentimento tão antigo quanto desenfreado que dói no estômago e fere o coração. Só para citar um bom exemplo, a música ''Dor de cotovelo'', de Caetano Veloso, destila minúcias que qualquer pessoa que já amou pode identificar: ''O ciúme dói nos cotovelos. Na raiz dos cabelos. Gela a sola dos pés. Faz os músculos ficarem moles. E o estômago vão e sem fome''. A música é interpretada magistralmente por Elza Soares no disco ''Do Coccix até o pescoço'' (Mangaia/2002), que tem esse título, aliás, inspirado na música de Caetano (''O ciúme dói da flor da pele ao pó do osso. Rói do cóccix até o pescoço'').
Para ir além da música, é só dar uma zapeada na televisão. A Rede Globo, na novela ''Mulheres Apaixonadas'' aborda o tema à exaustão com suas personagens que amam demais e já chegou a ultrapassar os 50 pontos de ibope nas cenas mais tórridas em que Heloísa (interpretada por Giulia Gam) luta pelo amor do marido, o arquiteto Sérgio (Marcelo Anthony). A personagem de Giulia foi responsável por divulgar um importante meio de apoio para mulheres que amam tanto quanto a personagem e são capazes de fazer tudo, até se destruir (e também destruir ao outro) por amor.
Trata-se do grupo Mulheres que Amam Demais Anônimas (Mada), com sede em São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis, Fortaleza, João Pessoa e Curitiba (com reuniões semanais na Igreja Bom Jesus). A novela ajudou a alavancar o número de pessoas que frequentam as reuniões do grupo, fundado em 1994. ''Antes da novela, tínhamos cerca de 25 pessoas nas reuniões, agora em cada encontro, mais de 100 mulheres participam'', comemora a servidora do Mada, em São Paulo, Lenice Mancini.
Ela revela que a projeção do grupo teve início quando a integrante do Mada Rita Ruschel lançou o livro ''Rita Ritinha aprendendo a amar'' (Editora Ágora), prefaciado por Manoel Carlos, autor da novela. ''Foi assim que ele ficou sabendo do Mada e decidiu divulgar em Mulheres Apaixonadas.''
A autora do livro conversou com a Folha, por telefone, e contou que o livro foi uma forma dela revelar como os grupos de auto-ajuda podem influenciar na recuperação de uma pessoa. ''Eu vim de uma família disfuncional, fiz 10 anos de análise e tinha um relacionamento doentio com meu parceiro, mas só fui perceber o quanto isso me prejudicava depois que procurei o Mada'', revela Rita. Foi o grupo que a ajudou a deixar, depois de nove anos, o relacionamento que hoje ela classifica como doentio. ''É claro que a primeira vez que frequentei o grupo fiz como a Heloísa na novela, ridicularizei a situação, mas depois percebi que precisava de ajuda'', relata.
Mas como perceber que o amor, o ciúme, o desejo pelo outro está passando dos limites? Quando é hora de procurar ajuda? O psicólogo e psicoterapeuta Dionísio Banascewski explica que ''todo excesso é maléfico'' e que a pessoa geralmente percebe quando está se excedendo e extrapola os limites do relacionamento. ''O ciúme vem da insegurança em excesso e esse sentimento pode ter efeito contrário, e acabar matando a relação'', conta o psicólogo complementando que cada pessoa tem que saber dosar o sentimento e perceber quando está se anulando em função do outro.

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