COMPORTAMENTO A CPI da saia-justa
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sábado, 20 de agosto de 2005
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Nas ''Mulheres de Atenas'' canção de Chico Buarque que remete à submissão feminina , as ''Mulheres de Brasília'' não se espelharam e mostram pouca complacência com os homens do poder. Mais para uma peça tragicômica, o episódio do ''Mensalão'' trouxe à tona as mais diferentes nuances da personalidade feminina (algumas nem tão nobres, assim), passando pela mulher ferida, que não se intimidou ao denunciar as mazelas do ex-marido, até a secretária exemplar que, em princípio, ainda sem motivos claros, teria por ''patriotismo'' decidido colocar a ''boca no trombone'', tornando-se um dos principais pivôs para desvendar uma provável rede de corrupção no governo Lula. O apelo da vaidade feminina também não passou despercebido: além de ser requisitada para entrevistas nos principais jornais do país e programas de TV, a secretária teria até sido sondada para sair nua na revista Playboy, o que, pelo visto, não passou de sonho ou blefe. Na balbúrdia nacional, fica a dúvida de qual será a próxima faísca que irá atiçar a fogueira das vaidades e colocar em evidência histórias que até então ficavam restritas ao âmbito privado, embora envolvessem dinheiro público.
Tudo começou no dia 14 de maio, quando o chefe do departamento de contratação e administração de material dos Correios, Maurício Marinho, foi gravado em vídeo relatando a roubalheira generalizada que ocorreria no governo federal. Marinho diz que atua em nome do PTB e do deputado federal Roberto Jefferson (PTB). No fim da conversa, em uma cena emblemática, embolsa um maço de R$ 3 mil, a título de adiantamento de propina e acaba sendo afastado no dia seguinte. Em 9 de junho, instala-se a CPI dos Correios, e três dias depois, Jefferson, na Folha de São Paulo, denuncia o ''mensalão''. No dia seguinte ao seu pronunciamento, a goiana Raquel Teixeira, deputada licenciada do PSDB, afirma que recebeu oferta em dinheiro para trocar de legenda, mas não conta de quem partiu a proposta. No dia 14, na Comissão de Ética da Câmara, Silvana Japiassu, secretária particular de João Cunha (PT), diz ter ganho passagens áreas e hospedagem do publicitário Marcos Valério e que este era visto no gabinete do deputado. Já não havia dúvidas, de que havia algo de podre no reino de Brasília, mas a CPI começava mesmo a cheirar a perfume de mulher.
Para roubar a cena, aparece Fernanda Karina Somaggio, ex-secretária de Marcos Valério, que diz em entrevista à revista IstoÉ Dinheiro que viu malas de dinheiro saírem das agências do publicitário e que seu patrão viajava em jatinhos do Banco Rural. Segundo ela, Valério mantinha contatos com os líderes petistas José Dirceu, Delúbio Soares e Sílvio Pereira. A entrevista tem uma origem suspeita, mas as informações conferem com o perfil operacional do empresário. No dia 16 de junho, cai José Dirceu. Dois dias depois, a socialite Maria Christina Mendes Caldeira, ex-mulher do deputado federal Valdemar da Costa Neto, diz que ele agia em estreita sintonia com Delúbio Soares e menciona a contribuição ilegal do governo de Taiwan para a campanha de Lula. Há um ano ela e o marido protagonizavam uma das separações mais estrepitosas de Brasília. Na época, quando ela tornou pública as agruras de sua separação, Neto cortou água, luz e telefone da casa onde ela morava e, em seguida, abriu oito processos contra a ex-esposa.
No dia 22, em depoimento ao Conselho de Ética, a deputada licenciada Raquel Teixeira diz que recebeu oferta de R$ 30 mil mensais e mais R$ 1 milhão para trocar o PSDB pelo PL, feita pelo líder do partido na Câmara, Sandro Mabel. No dia 19, a mulher de João Paulo Cunha, Márcia Milanésio Cunha, aparece com R$ 50 mil, e a assessora do líder do PT na Câmara, Anita Leocádia, sacou no total R$ 320 mil de contas da agência de Marcos Valério. No dia 20, Zilmar Fernandes da Silveira, sócia do publicitário Duda Mendonça, que fez a campanha do presidente Lula, aparece como sacadora de R$ 250 mil da conta da SMPB em abril de 2003. Em nota, ela informa que a empresa Comunicação e Estratégia Política (CEP), da qual é sócia, recebeu R$ 500 mil do PT como pagamento por serviços.
No âmbito do poder, onde os homens sempre deram as cartas, o 'imbróglio' envolvendo denúncias de saques milionários, coloca nas rodas de depoimentos cada vez mais vozes femininas, um coro desafinado de militantes, assalariadas e dondocas que Almodóvar cooptaria sem titubear para o elenco de ''Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos''.
No final de junho, chega a vez da mulher de Marcos Valério, Renilda Maria Santiago de Souza, notavelmente desinformada sobre todo o conjunto da vida financeira do casal e das empresas das quais é sócia, afirmar que José Dirceu ''sabia dos empréstimos'' e participou de reunião para discutir o problema com diretores do Banco Rural e BMG no ano passado. Na ocasião, a deputada federal Denise Frossard (PPS-RJ), que até o momento era uma das poucas vozes que conseguiam aprofundar os questionamentos sobre a corrupção, chegou a afirmar sobre Renilda: ''De Amélia ela não tem nada'', já que a mulher de Marcos Valério apresentou-se na CPI como ''do lar'', jargão sem ousadia das mulheres que preferem os bastidores, sobretudo em situações suspeitas. No mesmo período, a secretária Fernanda Karina faz o caminho oposto e puxa os holofotes para si como ''a musa do mensalão'' entregando à Polícia Federal sua cobiçada agenda.
No dia 1º de agosto, Valdemar da Costa Neto renuncia ao mandado e afirma que irá processar a ex-mulher. Ao mesmo tempo, Maria Ângela Saragoça, uma das ex-esposas de José Dirceu, ganha destaque nacional com o anúncio de que havia conseguido, através de Marcos Valério e do Banco Rural, um emprego de meio período, empréstimo para comprar apartamento e vender um antigo imóvel, comprado por Rogêrio Tolentino, sócio de Valério.
Informação bombástica foi o total do dinheiro sacado pelos beneficiários de Valério, segundo lista entregue por outra mulher: a diretora financeira da SMP&B, Simone Vasconcelos, que atinge a marca de R$ 55.804.000,00, sendo a maior beneficiária, com R$ 15 milhões, Zilmar Fernandes, sócia na agência de Duda Mendonça, publicitário de Lula. O Brasil nunca tinha visto tantas mulheres com tanta grana.
Dentro desse cenário, nada animador, a ''Liga do Bem'' também aparece de saias. A deputada federal Denise Frossard (PPS-RJ) e a senadora Heloísa Helena (PSOL-AL) ganham elogios pelos seus desempenhos à frente das CPIs. Com fama de justiceira das Alagoas, Heloísa diz não se importar com as críticas dos colegas a seu estilo veemente:''Grito mesmo. Só assim para ser respeitada''. Despojada, normalmente vestindo calça jeans e camiseta, ela se diz boa de briga principalmente com a ex-colega, senadora Ideli Salvatti (PT-SC) , e seu nome até deu origem a um novo adjetivo: ''helênica fúria''. Do mesmo lado, aparece a deputada-juíza Denise Frossard, com um estilo mais sóbrio. Sempre de calça, blazer, camisa e colete (tem coleção: vermelho, azul, preto, de bichinhos) e, às vezes combinando a cor da armação dos óculos com a do figurino, Denise parece sabe acuar adversários com seu conhecimento jurídico, impondo respeito aos depoentes. Um bom exemplo foi quando perguntou com altivez a Delúbio Soares (ex-tesoureiro do PT), na CPI dos Correios: ''O senhor conhece uma cadeia por dentro?''
Bem mais comprometida, outra figura feminina passou recentementea integrar o rol de mulheres que são destaques na CPI: a cafetina Jeany Mary Corner, que teria agenciado garotas de programas para festas com políticos pagas pelo caixa de Marcos Valério. Em protesto, a bancada feminina da Câmara quer saber quem são os clientes da cafetina. E dizem que senhores de todas as idades e de todos os partidos já acendem velas e fazem promessas pelos cantos, acuados pela idéia de que ''a orgia não tem ideologia''.
As deputadas Maninha (PT-DF) e Maria do Rosário (PT RS) defendem que é preciso combater a exploração de mulheres, além de exigir rigor na investigação de um carro oficial, que serve ao senador Valmir Amaral (PP-DF), que teria sido usado para o transporte de garotas de programas. Pelo visto, de sexo frágil, embora por motivos diferentes, as ''Mulheres de Brasília'' não têm nada...


