Curitiba - Lá se vão quase cem anos que Marcel Duchamp (1889-1968) transformou em arte uma roda de bicicleta presa a um banquinho. Depois disso, a arte não foi mais a mesma, mas a bicicleta continua sendo um meio de transporte. A diferença é que durante esse tempo, as funções do veículo também se modificaram. As peças mais antigas viraram objeto de consumo e uma bicicleta do início do século, da mesma marca utilizada por Duchamp para o seu ready-mader, por exemplo, pode valer algumas centenas de dólares. E se colecionar bicicletas virou um hobby que desperta paixões, o processo de restaurá-las também é um caso de amor e arte.
E foi o amor que inspirou o mecânico aposentado Evandro Friesen a comprar a sua primeira bicicleta, na década de 40. Nascido no interior de Santa Catarina, em uma família de origem humilde, Friesen cresceu vendo amigos de famílias mais abastadas andando de bicicleta. O desejo de ter o veículo precisou ser enclausurado, mas não esquecido, até que a família do garoto se mudasse para Curitiba. Foi quando ele decidiu correr atrás do sonho e passou a juntar ossos de boi na vasta mata encontrada na época na região para vender para as fábricas de adubo. ''Alguns meninos juntavam lata, ferro ou papel. Eu juntava osso porque não tinha muita concorrência'', contou o aposentado à Folha 2.
Com o dinheiro da venda do inusitado material ele pode comprar as primeiras roupas e sapatos numa loja e finalmente adquirir a sua própria bicicleta. ''Eu comprei logo duas, uma para mim e outra para dar a uma garota por quem eu estava apaixonado'', revela. A ''garota'' era Helena, a mulher com quem se casou e vive até hoje, numa chácara no bairro Uberaba, em Curitiba, onde mantém o seu ateliê.
Num galpão instalado na chácara, ele restaura e refaz peças que já não existem, como os selins, mas é dentro de casa, cuidadosamente cobertos por lençóis, e polidos periodicamente, que ele guarda os veículos prontos. Alguns deles levaram mais de cinco anos para serem restaurados. ''Eu não restauro as bicicletas para ninguém, não é um trabalho que faço para fora, mas para mim mesmo'', faz questão de frisar o aposentado. Mestre de oficinas de veículos por 32 anos, Friesen aliou a arte de restaurar bicicletas, com a arte de fazer amigos e discutir horas sobre o mesmo assunto. ''A bicicleta é o meu vício'', brinca.
E de tanto buscar componentes originais para montar os seus veículos, o aposentado passou a reconstruir peças como as de fábrica, originais. ''Eu percebi que a parte mais difícil era o banco e me especializei nessas peças. Mandei fazer carimbos como os originais, mas não conto para ninguém como se faz isso'', diz. Ele revela que a internet transformou o comércio de peças e bicicletas antigas num nicho valioso, mas arriscado. ''Eu não compro bicicletas e peças sem documentos, por exemplo, pois pode ser roubado'', ensina.
Depois de garimpar componentes que guarda em vitrines como obras de arte em galerias, Friesen passa horas, dias, meses e até anos a fio empenhado em reconstruir um só veículo. ''Já passei alguns apertos financeiros e tive que vender alguns, mas tem outros de que não me desfaço'', diz. Entre as suas pérolas, estão uma bicileta alemã, da marca Durkoop, de 1939. As bicicletas femininas dessa época, conta o aposentado, tinham uma peculiaridade: uma rede acoplada à rosa traseira para que a saia das mulheres não ficassem presas.
Mas é uma bicileta de 1951, que Friesen chama carinhosamente de McLaren, que ele guarda a sete chaves. ''É uma bicileta da marca Miele, que levou anos para ficar do jeito que está. Ainda hoje saio para pedalar com ela'', conta.
Mas quando não está pedalando com as suas raridades, o aposentado de 65 anos trabalha em suas peças antigas, as mesmas que transformam o seu ateliê numa reconstrução da obra de arte revelada por Duchamp.

mockup