COMPORTAMENTO - Toca aquela...
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terça-feira, 23 de setembro de 2003
Júlio Maria<br> Agência Estado 
Uma pá resolveria. O cantor cavaria um buraco no palco, enfiaria a cabeça e pediria a alguém que jogasse terra por cima. A hora de cantar aquela música que se tornou para ele a mais insuportável de todas as músicas traz o incontrolável desejo de sumir. Ao criar maravilhas para seus fãs, o artista pode estar criando também um pesadelo.
O estômago de Lulu Santos sai pelas orelhas se ele tiver de cantar de novo seu megassucesso ''Minha Vida''. O de Bezerra da Silva vira dos avessos se alguém pede ''Pega Eu Que Eu Sou Ladrão''. A mala sem alça dos Los Hermanos se chama ''Anna Júlia''. A de Ritchie já se chamou ''Menina Veneno''. E mesmo a realeza Roberto Carlos mandou decepar de seu repertório ''Quero Que Vá Tudo Pro Inferno'' por temer que o próprio capeta viesse lhe buscar.
A maldição do Capital Inicial responde por ''Música Urbana''. ''Não aguento mais essa música'', desabafa Dinho Ouro Preto. A canção de 1986, época de estouro do rock nacional, jamais ficou fora de um show. ''Ela não se renovou.'' Sutilmente, o monstro de Dinho vai sendo jogado nas profundezas do repertório. ''Ela encerrava o show nos anos 80. Agora encerra o bis. Logo vai ficar de fora.''
A mais tocada nem sempre é a pior para o artista. Lulu Santos, 30 anos de música, repete há duas décadas que ''nada-do-que-foi-será...direito-do-jeito-que-já-foi-um-dia''. Mas a própria letra depõe contra sua tese. ''Como Uma Onda'' continua idêntica ao que era quando foi lançada, em 1982, e é rigorosamente cantada por Lulu em todos os shows. ''Estava hoje mesmo tocando essa música aqui em casa e pensando em como ela é bela.''
Seu inferno é outro. ''Minha Vida'', que começa com Lulu Santos cantando ''quando eu era pequeno, eu achava a vida chata'', passou a ser um porre para seu criador. ''Ficou insuportável e a joguei no lixo. Não havia a menor possibilidade de continuar cantando isso.''
Mas nem Lulu, nem Capital, e nem qualquer outro ser cantante repete os mesmos versos há tantos anos quanto o Demônios da Garoa. Falou do grupo, lembrou de ''Trem das Onze''. Nos trilhos desde 1964, o samba de Adoniran Barbosa fará 40 anos em 2004. E o grupo precisa tocá-lo três vezes por semana como se fosse a primeira vez. ''Não depende da gente. Se não cantarmos, somos linchados'', diz Sérgio Rosa, filho do fundador Arnaldo Rosa.
Sábios de que só existirá vida a eles enquanto existir ''Trem das Onze'', os Demônios tentaram sacar do show outro samba que dava sinais de morbidez: ''Tiro ao Álvaro''. Mas no dia em que deixaram de tocá-la, a platéia só faltou jogar bombas no palco. ''Tivemos de voltar e tocar. É uma marca... e graças a Deus.''
O fanatismo por ''Trem das Onze'' chega a ser sinistro. Sérgio Rosa foi visitar o túmulo do pai Arnaldo há dois meses. Introspectivo, teve seus pensamentos cortados por um assobio ao longe de ''Trem das Onze''. O som foi aumentando, aumentando... ''Era o coveiro. Foi só me ver que o infeliz começou. A gente não tem paz nem no cemitério.''
Foi para a beira da cova que a carreira de Ritchie migrou no final dos anos 80, vítima de uma traiçoeira ''Menina Veneno''. A mesma canção que o colocou nas nuvens o traumatizou a tal ponto que ele se retirou de cena por mais de dez anos. ''Ela me saturou muito. Fiquei um refém.'' O pesadelo foi superado. ''Hoje tenho uma atitude menos infantil. Se eu não cantá-la, as pessoas ficam frustradas.'' ''Menina Veneno'' estará em um disco ao vivo que o cantor quer gravar em breve.


