COMPORTAMENTO - Sexo com naturalidade
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terça-feira, 21 de setembro de 2004
Fernanda Bressan<br> Reportagem Local 
Como nascem os bebês? Como eles foram parar na barriga da mãe? O que é sexo? Inocentes e despretenciosas, as perguntas que envolvem sexo e sexualidade surgem desde os primeiros anos de nossas vidas. Vistos ainda como um tabu, esses assuntos nada mais são que parte integrante de nossa vida desde a concepção e necessários para uma vida saudável e feliz.
Para minimizar o abismo do diálogo entre pais e filhos em muitas famílias, a escola Educativa promoveu anteontem uma palestra para pais e educadores com o psicanalista Ailton Bastos sobre ''Quando e como falar de sexo com crianças e adolescentes''. A diretora da escola, Eliane Nápoli, conta que a escola desenvolve um trabalho sobre sexualidade em sala de aula com os 200 alunos do maternal à 5 série. O tema é discutido dentro de valores sociais e cristãos e a cada ano se trabalha um assunto diferente.
O psicanalista Bastos concedeu entrevista à Folha e explicou pontos importantes da maturação da sexualidade humana. Ele afirmou que, desde a fecundação, o feto já inicia sua educação sexual. ''A sexualidade faz parte da constituição do ser humano. Antes da criança nascer, o adulto já começa a se comportar com o filho de acordo como sexo, seja menino ou menina. Mesmo inconsciente, começa a educar o filho desde então'', descreveu Bastos.
Toque, curiosidade e movimentos prazerosos são observados ainda nos bebês. Bastos aponta que a criança, mesmo sem ter consciência do ato sexual, percebe que determinados movimentos provocam sensações prazerosas. O menino se toca, a menina percebe que se sentar de determinada maneira ou tocar também dá prazer e passa a executar os movimentos. ''Quando a criança começa a se tocar é preciso evitar a repressão e agir com naturalidade'', orienta o psicanalista. Ele pondera que o fato pode causar certo constrangimento se feito na presença de outras pessoas. Mas, ao invés de dar uma conotação de que se trata de algo errado e proibido, os pais devem chamar a atenção da criança para outra atividade e desviá-la do que está fazendo. ''É perfeitamente normal que a criança se descubra'', tranquiliza Bastos.
Quando as perguntas começam a aparecer, Bastos garante que o melhor é responder na hora, sempre respeitando o conhecimento da criança. ''Tem que falar sempre de acordo com o tamanho da pergunta. Não é para dar aula de sexualidade porque a criança pode não entender ou não estar interessada em outros aspectos'', relata. Bastos aconselha que também é possível sondar o conhecimento da criança sobre o assunto e responder a dúvida na sequência, passo a passo. ''Não tem idade para começar a falar, é quando surge a pergunta'', frisa.
O psicanalista garante que a falta de diálogo e conhecimento são prejudiciais. ''Não falar abertamente não significa não estar informando. Se a mãe fica nervosa ou ruboriza quando questionada, a criança vai entender que é sujo, feio e proibido'', argumenta. Para ele, o adulto precisa resolver seus próprios problemas e tabus. ''Ele tem dificuldade de falar sobre o assunto porque não sabe lidar com si próprio. Geralmente se fala muito em doenças, contracepção, perigos, mas não se fala de excitação, desejo, prazer, masturbação'', constata.
Falando nisso, a masturbação é outro ponto polêmico. O psicanalista destaca que ela pode começar antes mesmo da criança ter conhecimento sexual, quando descobre o prazer que dá determinados movimentos e toques. ''A masturbação é um processo natural de conhecimento. O que não pode fazer é que ela substitua a vida a dois, não se limitar a essa questão'', atesta Ailton. Ele pondera ainda que como tudo na vida a masturbação também tem limites. ''Se a gente percebe uma fixação exagerada, é sinal de que há algum problema. Tem que investigar a causa que está sendo canalizada para isso. O problema não é a masturbação, é outra coisa que causa sofrimento''.
Da masturbação, o adolescente ou jovem começa sua vida sexual. Até para o psicanalista é difícil estabelecer idade e momento para a primeira relação. ''Isso é perigoso porque uma pessoa pode se sentir pressionada a iniciar sua vida sexual'', justifica. Ailton chama a atenção para a banalização da sexualidade. ''O sexo se transformou em um produto a ser consumido'', critica. Ele lembra que nos dias de hoje há um consenso de que é mais feliz quem tem mais prazer, o corpo mais bonito e mais parceiros sexuais. ''As pessoas acabam se perdendo'', constata.


