COMPORTAMENTO - Sexo bem temperado
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de junho de 2003
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Uma das personagens do seriado americano ''Sex and City'' nova febre da tevê a cabo surpreende as amigas quando se vicia em um vibrador. No episódio em questão, Charlotte não quer mais sair de casa. Inventa tantas desculpas para ficar a sós com o novo brinquedo a ponto das amigas invadirem o apartamento dela em busca da ''droga'' e a obrigarem a ir a uma festa para, quem sabe, conhecer um homem de verdade. Exageros à parte, abordar as características de um vibrador ou qualquer outro objeto que sirva para alimentar as fantasias sexuais já deixou de ser tabu até mesmo entre as mais recatadas.
Até uma propaganda de shampoo, exibida atualmente na televisão aberta, mostra um grupo de amigas confessando as últimas fantasias sexuais que realizaram com os maridos, vestindo-se de vaqueira a camareira. Longe das telas, a realidade não é diferente. Em Curitiba, uma das mais antigas lojas de conveniências sexuais decidiu abrir uma espaço apenas dedicado a mulheres, depois que constatou o aumento da clientela feminina.
A Muito Prazer, do empresário Jorge Belém, é a primeira loja da cidade totalmente adaptada para esse tipo de público. Na loja, encontra-se de tudo, de vibradores convencionais e discretos até aparelhos que imitam a anatomia masculina nos seus mais vantajosos tamanhos. A loja segue uma tendência que já foi constatada em São Paulo. Na capital paulista, três empresárias de olho no mercado em expansão abriram a Revelateur, que além de fantasias e lingeries sensuais femininas tem uma extensa gama de produtos para cama e banho, de lençóis de seda a acessórios temáticos que possam estimular e apimentar a relação.
Em comum, as duas lojas oferecem além de produtos inovadores que saíram das prateleiras de sex shops escuros e suspeitos, para vitrines amplas e iluminadas uma completa assessoria para a mulher que decidiu quebrar tabus sexuais e buscar instrumentos de prazer.
''São as mulheres que tomam a iniciativa na hora de buscar algo diferente para a relação'', diz o empresário Jorge Belém, há seis anos no ramo de sex shop. Ele conta que cerca de 70% do público da sua primeira loja são compostos por mulheres e por isso decidiu abrir uma segunda loja apenas para atendê-las. O espaço tem locais reservados e atendimento privativo, onde as atendentes podem mostrar toda a variedade de produtos e tirar as dúvidas das marinheiras de primeira viagem.
Belém conta que o aparelho com mais saída ultimamente é um vibrador à prova d'agua, acoplado em uma ducha de banho. O produto, que custa cerca de R$ 80,00, esgotou em menos de uma semana. Um verdadeiro sucesso. Mas nem todos os objetos vendidos na loja têm preço acessível e saída tão rápida. Um objeto que imita a anatomia feminina e a textura da pele humana, feito com material desenvolvido pela Nasa, chega a custar R$ 1,3 mil.
E para as mulheres que não conhecem toda a variedade de produtos à disposição e ainda estão procurando estímulo ou coragem para utilizar esse tipo de recurso, a loja promove cursos de ginástica sexual. A professora Olinda Lima conta que a tônica principal do curso é desenvolver a auto-estima. ''A mulher aprende a ter e dar prazer'', diz. Ela revela que as pessoas que procuram o curso são mulheres que já têm uma relação solidificada e querem fortalecer o convívio íntimo. ''Com as brincadeiras sexuais, o casal cria mais vínculos e a relação fica mais prazerosa'', opina.
O curso dura quatro horas e custa em média R$ 150,00. A faixa etária que participa, segundo a professora, varia entre 18 e 50 anos. ''O importante não é a idade e sim a disposição para sentir prazer'', salienta Olinda. Os grupos são formados por clientes da própria loja, em Curitiba.
Em São Paulo, a Revelateur oferece cursos gratuitos mensais com uma sexóloga. ''Primeiro a mulher precisa se conhecer para depois abusar das fantasias'', afirma a empresária Ana Maria Faro, uma das proprietárias da Revelateur. A empresária trabalhava há 12 anos com lingeries comuns, mas percebendo a demanda das mulheres para objetos e produtos mais sensuais decidou apostar no setor.
''Nossa preocupação é não oferecer objetos vulgares. As fantasias são chiques e sensuais'', informa. Ana revela que a procura das fantasias depende da época do ano. No Natal, por exemplo, a fantasia de Mamãe Noel é a mais procurada, assim como a de coelhinha em época de Páscoa. ''Mas durante todo o ano, o que tem mais saída são as fantasias de empregada e enfermeira.''
A arquiteta S.R.C, de 45 anos, que preferiu não se identificar, é uma das clientes assíduas da sex shop em Curitiba. Ela foi casada por 18 anos e nunca procurou artifícios e mecanimos para desenvolver os ''fetiches'', como denominou. Depois de se separar e começar a namorar um outro homem, a arquiteta decidiu conhecer os produtos do sex shop. ''Existe um certo preconceito das pessoas. Muitos não usam esses mecanismos por inibição ou por estarem ligadas a códigos de comportamento que aparentemente não permitem a utilização desses recursos'', relata. Para ela, o preconceito pode estar ligado até mesmo a uma vaidade. ''As pessoas acham que não precisam desses recursos para um bom desempenho sexual.''
Para arquiteta, que namora há seis anos, a medida que o casal aprofunda a relação, deixa de ter alguns pudores. ''Para você usar esses artifícios sexuais você tem que ter intimidade'', diz complementando que não teria ''na bolsa'' esses produtos para usar com um desconhecido.
O psicanalista Victor Eduardo Silva Bento, doutor em psicanálise pela Universidade de Paris e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) salienta que o abuso dessas fantasias pode significar a ''morte'' do relacionamento. ''As fantasias em si perdem o sentido na relação quando não se sabe o motivo delas e quando o casal não conversa sobre isso'', conclui.


