Pergunte a um sadomasoquista e ele responderá que tapinha de amor não dói - ainda mais quando a criatividade da indústria do sexo e de produtos eróticos favorece os amantes que defendem com unhas, dentes e um arsenal de artifícios que, na cama, vale tudo.
Os adeptos do bandage (BDSM), sigla que resume o fetiche dos chegados em dominação e sadomasoquismo, podem até achar frescura, mas nos sex shops é possível encontrar chicotes que os vendedores garantem são inofensivos, como também uma tralha de coisas que asseguram dar um up na relação.
Mas, apesar do século 21 ser a era da proclamação da liberdade sexual virtual, ainda existem rincões em que a revolução do sexo, que marcou as últimas décadas, ainda não divide todas as camas.
Não pense que estamos falando de algum lugar nos cafundós do Judas. No Texas (EUA), por exemplo, as mulheres são proibidas por lei de comprarem alguns brinquedinhos sexuais, exceção quando o recurso tiver uso pedagógico.
Piadas à parte que a legislação americana possa suscitar, a palavra de quem entende do negócio garante que no Brasil 95% dos frequentadores dos sex shops são mulheres, 2% gays e um número ínfimo de homens.
''Antes, as mulheres ficavam esperando pelos homens. Atualmente, se o parceiro não dá prazer, elas vão em busca, já que entre tantos direitos conquistados pelo mundo feminino está o do próprio prazer'', afirma Renato Cordeiro Batista, empresário do mercado de produtos eróticos londrinense.
Diretor de marketing de uma das maiores fábricas brasileiras de produtos eróticos, Luiz Pereira, destaca que o público gay é um nicho de mercado potencial e que ainda não foi explorado.
''As mulheres são mais soltas, quando compram brinquedinhos e têm mais interesse em conhecer. Estamos tentando atrair os gays, primeiramente colocando no mercado livros com literatura que atenda este público'', frisa Pereira.
O sucesso da feira Erotika Fair, em São Paulo que, na edição 2006, reuniu um batalhão de 240 mil visitantes, que não estava interessado somente em encher sacolas, mas em assistir a shows de strip-tease e peep-shows (sexo explícito), é um termômetro do apetite dos brasileiros por novidades sexuais.
A Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico e Sensual estima o faturamento anual do setor em mais de R$ 700 milhões. ''Como assim?'', diria Pereira, que discorda desses números tão avantajados.
Ele argumenta que o mercado vêm crescendo, como outros setores da economia brasileira, mas ressalva que é preciso separar o joio do trigo. ''O crescimento de produtos eróticos não é muita coisa. Já o ramo de prostituição sim rende milhões de dólares. Isso eu sei porque vejo na TV. Se o faturamento do mercado de sex shop fosse tanto não seria preciso marido e mulher trabalharem numa loja, por exemplo. É um mercado bom, mas falar em milhões é incluir coisas como filmes com crianças'', diz ele.
''Infelizmente é uma coisa totalmente ilícita, mas que ninguém faz nada. As revistas pornôs também faturam um dinheiro fantástico. Digo que o mercado de brinquedos eróticos ganha alguns mil reais e não milhões. Não passa disso. É muito ilusório dizer que ganha tanto dinheiro'', comenta o diretor da indústria, que fabrica 1.300 itens entre vibradores, massageadores e artigos para sadomasoquismo, comercializados em todo o Brasil e exportados para países, como Portugal, Itália, Alemanha, Canadá e Argentina - mercados mais severos em relação à qualidade dos produtos.
Na opinião de Pereira é preciso estabelecer uma diferença entre o erótico e a prostituição, o que contribuiria para diminuir o tabu. ''Ao juntarmos tudo dentro de um setor que faturaria valores astronômicos, as pessoas acabam achando que numa loja de sex shop rola prostituição, o que fortalece o tabu'', ressalta o diretor da fábrica, que está há 20 anos no mercado erótico.
Preconceitos enrustidos e que na hora de saírem do armário em direção a um sex shop não deixam de ser percebidos pelos que estão atrás do balcão.
O empresário Batista conta que é comum marinheiros de primeira visita à loja entrarem com cara de assustados. ''Outros não param de rir, uma reação inconsciente para distrair a vergonha que sentem. Na realidade não tem porque reagir assim já que estamos aqui não só para vender o produto, mas satisfazer os nossos clientes'', pondera Batista.
Experiência que leva Batista a saber o que a clientela espera com os produtos - aliás um público que vai dos 18 aos 80 anos de idade.
Ele afirma que em tempos de Aids, a mulher solteira compra produtos eróticos, principalmente vibradores, porque é uma maneira de obter prazer sem deixar de se guardar e prevenir contra algumas doenças.
Os casais procuram as lojas porque querem dar um trato na rotina. Neste caso, acessórios, como vibradores, ajudam à estimulação durante as prévias.
''As viúvas e divorciadas compram mesmo por uma questão de saúde. Sexo é saúde mesmo sem o parceiro. Já os casados precisam pensar que, não é porque estão comprando um produto, que conseguirão salvar o casamento. É preciso ter tesão'', afirma o empresário.
Como acontece com a maioria do comércio, o de produtos eróticos também fica esperando que o saco do Papai Noel fique cheio de brinquedinhos, sendo que, o final do ano, representa um período de maior faturamento das lojas. ''Nesses meses, as pessoas ficam mais animadas. No inverno tudo se retrai, o pessoal fica mais quietinho'', avalia Batista.
Para os rompem as fronteiras das portas do mundo dos sex shops, geralmente espelhadas para garantir o sigilo da clientela, não existe limites para a fantasia.
Gel, calcinhas e vibradores integram a cesta básica sexual da maioria das mulheres. Em relação a este último item sempre tem novidades, sendo que os preços variam de R$ 100,00 a R$ 220,00.
Nas lojas londrinenses, o massageador clitoriano e do ponto G é um acessório considerado top de linha ao preço de R$ 138,90.
Em exibição nas prateleiras também estão muitas coisas toscas, como uma prótese peniana de 30 centímetros por 7 centímetros de diâmetro que, geralmente é o objeto do desejo de algum amigo da onça, que quer sacanear alguém.
O que não existe nas prateleiras da loja, empresários como Batista mandam buscar, encomendando produtos como bonecas infláveis que custam cerca de R$ 20 mil.
Para os que gostam de se enrolar nos lençóis com uma pele de silicone, o brinquedinho é quase uma mulher, podendo escolher inclusive a cor dos cabelos, olhos e até a espessura da coxa. Pesando cerca de 60 quilos, só falta bater o coração...

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