COMPORTAMENTO - Procuram-se homens...para dançar
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sexta-feira, 01 de agosto de 2003
Ana Setti Rosa<br> Reportagem Local 
A oficina de Dança de Salão que teve início ontem na Escola Municipal de Dança, como parte da programação didática do Festival, obteve excelente receptividade. Todas as vagas foram preenchidas, só que apenas por mulheres. Como formar pares assim? Na escola de dança de salão Casa di Baile, que o casal de professores encarregado da oficina, Renato e Alexandra Valença, mantém em Ribeirão Preto, São Paulo, padece da mesma dificuldade, o número de mulheres é sempre superior ao de homens. O que será que inibe os passos (de dança) dos representantes do time masculino?
''Há um certo machismo e mesmo timidez por parte dos homens'', explica Renato, ''que precisam ser superados para que eles possam se interessar por dança de salão''. O resultado dessa superação, no entanto, é uma vantagem competitiva nada desprezível, num ''terreno'' muito valorizado pelos homens, o da conquista. ''O homem que dança bem chama mais a atenção'', comenta Alexandra, ''todas as mulheres querem dançar com ele''. Isso, naturalmente, facilita as paqueras.
Mas há mais vantagens do que se imagina na dança de salão, tanto para homens, quanto para mulheres. ''As pessoas aprendem a se comunicar melhor, tornam-se mais desinibidas e auto-confiantes e chegam até mesmo a usar a dança como terapia, para se desestressar'', afiança o casal. Além disso, de acordo com Alexandra e Renato, dançar ''ajuda a desenvolver a flexibilidade do corpo, a coordenação motora, a percepção do ritmo, a postura corporal mais correta, a resistência física e a criatividade''. Mas o que melhor faz a dança de salão é aproximar pessoas e, nesse sentido, configura-se como um antídoto daquilo que, em geral, mais se teme, a solidão.
Contudo, esse preconceito, notadamente masculino, em relação à dança de salão parece atingir mais o interior e a região Sul, porque seguindo para o litoral e em direção ao norte do país, o cenário (do baile) modifica-se um pouco. ''Rio de Janeiro, Minas Gerais e Pernambuco'', especifica Renato, ''têm a mesma linguagem em termos de dança de salão''. O gênero é muito bem aceito nessas regiões e no Nordeste, especialmente, entre todos os tipos, o forró é o rei. Se o preconceito, no entanto, for em relação a uma possível monotonia dos passos, o engano é total. A atualização constante, como explica o casal, é indispensável para quem dá aulas de dança de salão. E, mais uma vez, é o homem que se encarrega de criar novas coreografias, com base nos velhos passos. Como o papel de homens e mulheres é muito bem definido na dança, talvez esteja aí outra razão para o desencontro atual. ''A maior dificuldade dos homens é justamente a de conduzir, enquanto a das mulheres é a de ser conduzida'', afirma Renato. As mulheres costumam ficar muito ansiosas por causa disso, mas, como diz Alexandra, ''pedimos que elas deixem os homens conduzi-las, pelo menos na dança''.
E é na dança que tudo começa e continua para esse jovem casal, natural do Recife. Ambos têm formação técnica em dança de salão e Renato ainda fez especialização, para poder ministrar aulas para a terceira idade. Conheceram-se na academia, onde Renato, hoje com 24 anos, era professor, e Alexandra, atualmente com 22, era aluna. ''Eu fazia todas as aulas da escola'', conta Alexandra, ''menos a dele''. Ela achava que Renato era ''atencioso demais com as outras alunas''. Assim, nunca dançavam juntos... Isso até que houve um baile, a ''Festa da Cebola'', quando as mulheres tiram os homens para dançar e aqueles que se recusam são obrigados a comer, é claro, uma cebola! Estimulada pelo insistente ''me chama para dançar'' de Renato, Alexandra capitulou. Foi a primeira dança de muitas do par que se casou em 2001 e seguiu viagem, a convite de uma escola de balé, para Ribeirão Preto.
Em 2003, abriram seu próprio espaço em Ribeirão, o Casa di Baile, que oferece aulas de dança de salão para alunos de qualquer idade e desenvolve um trabalho social com grupos de terceira idade. Ontem, na abertura da Mostra Competitiva de Solos Livres, o casal apresentou a coreografia ''Swing do Samba''. Hoje, o Casa di Baile volta ao Funcart, também para o espetáculo de abertura, com um grupo de terceira idade, integrado por 10 alunos, que vão mostrar as muitas possibilidades de um xote. ''O trabalho com o pessoal de terceira idade é gratificante'', afirma Renato, ''porque a dança de salão se torna uma forma de mostrar do que são capazes''. Há também muita possibilidade de troca, com os jovens monitores e professores. ''Para os mais velhos'', completa, ''fazer dança de salão acaba sendo um sonho que haviam deixado para trás e que conseguem realizar agora''.


