COMPORTAMENTO - Platéias ruidosas invadem os cinemas
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de fevereiro de 2005
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Embora com avantajada parcela de culpa, não foi apenas a televisão que fez mal ao cinema, gerando novos ou radicalizando velhos maus hábitos de comportamento. Acho que se pode dizer que as ''delícias'' da modernidade, assentadas sobre diabólicos pilares tecnológicos que atendem pelos nomes pomposos de ''dolby surround'', ''stadium'' e ''multiplex'' devem em grande parte ser responsabilizadas por este mal estar que agora, com irritante frequência, se espalha pela outrora sagrada penumbra das salas. Não será exagero afirmar que, à sofisticação dos espaços de projeção que se multiplicaram nesta última década, se contrapôs um novo padrão de atitudes anárquicas e debochadas, uma maneira deselegante e imprópria de ver filmes, numa espécie de ultraje à comunidade cinéfila. Assim, todas as propaladas vantagens de uma forma contemporânea de celebração de imagens ficam neutralizadas quando hordas de bem equipados godos e visigodos espalham o terror entre aqueles que ainda acreditam na silenciosa comunhão dos espectadores, de resto o único procedimento civilizado quando se vai ao cinema.
Alguém me lembra que, antes e ''interativamente'', também se fazia farra e barulho, se batia pé, havia muita gritaria. Sim, mas a tempo, local e hora. Nas sacrossantas matinês do troca-troca de gibis, na angústia dos seriados, nas macaquices de tarzans e nas cavalgadas dos zorros. Ninguém ofendia ninguém, a algazarra era tolerada por todos, em horário exclusivo da garotada. O telefone só tocava na gerência, e ninguém ouvia. A barulheira ensurdecedora era acústica mesmo, e de digital somente os dedos tensos agarrados nos braços da cadeira de pau puro. Para comer, só uma balinha, a Chita, única e soberana.
E hoje, ressalvadas as exceções que consagram a regra, o que em geral nos reservam os frequentadores principalmente em dia de ''blockbuster''? Há de tudo, neste repertório de desvios comportamentais, nesta fauna de disfuncionais cujo propósito declarado é azucrinar a vizinhança imediata. Desde adolescentes ''american pie'', em dupla, trinca ou turma maior, iletrados com PHd em lixo televisivo, conectados em geral no baixo nível da imagem projetada ou por uma tosca rebeldia sem motivo aparente mas suspeitado, até a galera da gastronomia, que pode ser de qualquer faixa etária. As salas são hoje extensão da praça de alimentação entre quatro paredes, o que potencializa a trilha sonora alimentar - latas de refrigerante explodindo como fogos de artifício a intervalos regulares, pipocas crocantes-amanteigadas-nauseabundas mastigadas por bocas famintas e dentes possantes.
É óbvio que não se exigem medidas extremadas como, por exemplo, fazem as assíduas, quase fanáticas e sempre respeitosas platéias na Índia, perfilando-se e cantando o hino nacional do país antes do início das sessões. Ou a intermediação da força policial, muito pior emenda que o soneto. O que se pretende é tão somente recuperar e restaurar o sentido mais banal de urbanidade, de compreensão diante da manifesta vontade do vizinho de poltrona, que da mesma forma pagou para assistir o espetáculo sem ser perturbado. O que parece não ser nada fácil, no momento.


