COMPORTAMENTO - Paixão sem limites
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de novembro de 2005
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - O que você faria por uma paixão? Mudaria o próprio nome, viajaria para Inglaterra, assistiria ao mesmo filme duas vezes em menos de 12 horas só para satisfazer o objeto do seu desejo? E se o foco desse amor não fosse uma pessoa, mas a música, um ator, um filme, uma trilha sonora, uma coleção... Mudaria alguma coisa? Para algumas pessoas, nada. Pois há quem se dedique uma vida inteira a uma paixão que se torna mais que um hobby. Não é exatamente um relacionamento de troca, mas para alguns conquistar uma raridade para uma determinada coleção ou ser o primeiro da fila do cinema para ver um novo filme, vale mais do que beijos apaixonados.
O fotógrafo e videomaker Osval Dias Siqueira mais conhecido como Tiomkim começou a se dedicar ao seu amor as trilhas de cinema ainda criança. Influenciado pelo pai, que era músico, ele criou o hábito de colecionar discos dos mais variados gêneros musicais. As trilhas sonoras de filmes o fisgaram na década de 80, quando fez estágio com o jornalista Aramis Millarch. Foi mais ou menos nessa época que ele adotou o pseudônimo Tiomkim, em alusão ao compositor russo Dimitri Tiomkim. ''O nome me deu sorte'', conta.
E a paixão também rendeu frutos. Tiomkim acumula nas prateleiras de casa mais de 2 mil discos de vinil e há oito anos mantém o programa de rádio Cinemascope (na Rádio Educativa), além de estar prestes a lançar o site de mesmo nome. E para dar um empurrãozinho nesse amor, ele ainda trabalha no Museu da Imagem e do Som do Paraná, em Curitiba, onde pode ficar perto da música e do cinema. Atualmente, o videomaker descobriu ainda um novo suporte para as trilhas de cinema. Aquilo que não conseguiu reunir em LP ou CD está vasculhando na internet. ''Consegui baixar muita coisa rara. É claro que não tem o fetiche da caixinha ou capa original, mas o que importa é conseguir ouvir'', revela.
Entre as suas paixões, está uma em especial: a trilha sonora do filme ''Escravas do Medo'', de 1964. O filme dirigido por Blake Edwards (''A Pantera Cor de Rosa'') tem trilha sonora assinada por Henry Mancini. Uma raridade que Tiomkim guarda a sete chaves. ''Já me ofereceram mil dólares pelo disco, mas não está à venda'', diz Tiomkim. A explicação para tanto zelo e paixão, ele arrisca: ''Eu cresci e vivi no meio da música, não teria como ser diferente''.
Mas mesmo quem não teve tanta influência na infância atravesssou algum momento divisor em que a paixão por alguma arte transformou a vida e a carreira. O empresário José Carlos Gomes, de 38 anos, também tem a música como objeto de desejo. Aos 19 anos, ele começou a colecionar discos garimpados em sebos de Curitiba. Hoje, sua coleção de discos ultrapassa os 3 mil exemplares. Somente no ano passado, ele adquiriu 200 LPs numa viagem à Inglaterra. Seus discos não se resumem a um gênero específico, embora o empresário já tenha vivido fases de dedicação total ao punk rock, ele também se orgulha de alguns raros exemplares da sua coleção, como o primeiro LP da Rita Lee e uma edição nacional de um disco da cantora April Stevens, lançado na década de 60.
Este último, ele procurou durante muito tempo por causa de uma música de um comercial do extinto banco Bamerindus. ''Eu escutava aquilo e adorava. Queria ter o disco'', lembra. E são exatamente essas pequenas histórias que cada disco da coleção do empresário carrega que o fascina. ''Eu coleciono essas historinhas. Cada vinil, com sua capa, com seu ritual, tem uma história diferente'', salienta.
E talvez sejam essas histórias, essas recordações de um passado que traz boas lembranças que motiva os colecionadores. O funcionário público estadual Juarez Vilela Filho lembra da primeira vez que assistiu à série ''Guerra nas Estrelas''. ''Eu tinha 12 anos e assisti na televisão. Na semana seguinte, peguei os filmes na locadora para ver novamente. Desde então já assisti à série dezenas de vezes'', conta. No último lançamento da série de George Lucas, Vilela assistiu ao lançamento do filme à meia-noite no cinema, depois de comprar ingresso antecipado. Na primeira sessão do dia seguinte, às 11 horas da manhã, lá estava ele novamente na fila do cinema para ver o mesmo longa.
O motivo, ele explica ser a própria temática da série. ''Quando eu era criança, achava que era uma história de luta. Depois fui percebendo que é mais do que isso. É uma história psicológica, atemporal, que trata da disputa de poder, dos relacionamentos de pai e filho, considera''. Para conseguir os DVDs da série que coleciona, Vilela até que utilizou meios bastantes convencionais, excluindo os ''genéricos'' que conseguiu antes do lançamento no Brasil, mas há quem faça verdadeiras loucuras para conseguir aumentar determinada coleção.
O consultor de música da Livrarias Curitiba Horácio de Bonis trabalha há 14 anos no ramo e já recebeu encomendas bastantes insólitas. Na agenda de Bonis, existe uma relação de aficionados por determinados personagens e ele fica incumbido de avisar pessoalmente aos clientes quando encontra alguma novidade. Como o professor de Educação Física Cassio Ricci, que tem milhares de discos do músico e ator Elvis Presley, além de centenas de objetos que remetem ao ídolo.
O acervo de Ricci já rendeu até uma exposição em homenagem a Elvis na própria livraria. Mas a lista de clientes do consultor de música vai além. ''Eu tenho um cliente apaixonado por tributos aos Beatles. Ele tem os mais bizarros, desde new age até Beatles para crianças'', comenta.
E para quem acha estranho tanta dedicação, a psicóloga Yara Ingberman, doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo explica: ''Essa paixão exacerbada é comum à nossa cultura, mas quando começa a prejudicar o indivíduo no seu relacionamento com o 'mundo real', com seu trabalho, amigos e familiares, merece atenção'', conclui.


