COMPORTAMENTO - O casamento no olho do furacão
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de novembro de 2005
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Elas não foram felizes para sempre. Nem Cinderela, nem Branca de Neve, tampouco Bela Adormecida. Mergulharam sim numa relação tediosa e mesquinha onde um dos parceiros ou ambos se transformaram em ditadores domésticos, em tiranos insatisfeitos, tornando a relação um campo de batalha. Se esses finais não foram descritos em contos de fadas, na vida moderna, são bem reais. Pelo menos é o que defende a professora norte-americana Laura Kipnis no livro ''Contra o Amor - Uma Polêmica''(Record, R$ 34, 236 páginas). Na publicação a autora questiona o casamento como instituição e considera que o amor duradouro é um mito quando aceita e se baseia em regras pré-concebidas, como a fidelidade, por exemplo.
Para Laura, o interesse pelo cônjuge, é algo que não sobrevive aos tempos modernos. A insatisfação e a falta de desejo sexual são inevitáveis e implacáveis. Apoiada por referências históricas, a autora prova por a mais b, que essa não é um característica recente, mas foi só a partir dos anos 90, com a revelação de escandâlos sexuais ligados à política (como o de Bill Clinton, por exemplo) quando passou a ser discutida abertamente. Sorte (ou azar) dos casamentos que estão passando por uma reformulação velada. Ou as pessoas se transformam e notam que ''algo'' precisa ser feito ou estão fadadas à insatisfação, dentro e fora da relação.
É bom deixar claro que esse é um ponto de vista. Mas a prática não é tão distante do que defende a autora americana. É só olhar em volta e apontar casais se separando com cada vez mais frequência por incompatibilidade de gênios (e só). Com o componente de traições às escuras ou sem ele há muitos relacionamentos amargurados e infelizes. E o pior desse quadro dramático é que muitos deles não se rompem por causa da tradição, da cultura, ou simplesmente pelo medo do rompimento. Ou pelo amor.
Foi esse sentimento dúbio que levou a empresária V. (que prefere não se identificar) a manter o relacionamento depois que descobriu a traição do então namorado. Depois de três anos de namoro, V. descobriu que o parceiro tinha engravidado a ex-namorada. ''Ele me contou durante uma briga. Eu entrei em depressão, chorava. Me achava péssima. Mas acima de tudo queria entender porque ele tinha feito isso. O que estava errado?''. Dentro do turbilhão emocional, pressão da sociedade e das famílias, a empresária escolheu o caminho mais difícil: o perdão.
''Não foi fácil. Durante três anos, eu fiquei remoendo aquilo. Parecia que não ia esquecer nunca, mas hoje (seis anos depois) acho que superamos a situação. E acho que essa passagem até ajudou a fortalecer a relação'', analisa. Mas se alguns optam por enfrentar situações difíceis e adversas ao conceito essencial do amor romântico, outros acreditam na facilidade de simplesmente ''procurar outra pessoa'' e tentar novamente. Superar as adversidades e seguir em frente.
O resultado é um efeito dominó de relações mal resolvidas (o que Laura Kipnis chama de monogamia em série). A arquiteta Fernanda Nascimento, 31 anos, viveu uma situação semelhante. Logo que conheceu o ex-namorado, ele havia acabado de sair de uma relação conturbada. ''No início estávamos apaixonados, era tudo lindo. Mas eu engravidei e foi difícil lidar com isso sexualmente falando'', argumenta a arquiteta. Eles se separaram após o nascimento da criança, menos de dois anos depois da relação ter começado. ''Acho que não deu certo porque ele não estava bem resolvido. Mas não o culpo pelo fracasso da relação. Acho que a rapidez com que tudo começou atrapalhou um pouco'', diz.
A arquiteta concorda que os relacionamentos estão mais difíceis nos dias de hoje. ''Existem pensadores, historiadores e escritores que estão falando sobre isso cada vez mais, mas eu ainda acredito no amor. Acho que o problema é que ninguém mais fica numa relação que está 'incomodando', querem logo partir para uma outra coisa. De repente, é preciso lidar com esses incômodos e enfrentá-los'', opina.
Ainda que ninguém tenha argumentos suficientes para provar como a mudança da sociedade influencia nas relações amorosas (ou apenas o amor romântico, aquele dos comerciais de margarina impera, se é que ele existe), não há como negar que algumas relações dão certo, sem que elas tenham que ser trabalhadas. Sem que todas as reservas financeiras do casal sejam gastas em terapia.
Casados há 50 anos, Arno e Úrsula Gueths, não descobriram a fórmula (mesmo porque ninguém sabe se ela existe mesmo), mas convivem bem há meio século sem precisar de terapia de casal, sem discutir a relação e sem, nem por uma vez, pensarem em se separar. ''Nós trabalhamos juntos por quase 50 anos também e isso acabou ajudando. Sempre fizemos nossas coisas separados, mas estávamos ali, um ao lado do outro'', conta Úrsula, mostrando com orgulho a festa das Bodas de Ouro comemorada no ano passado. ''Hoje em dia, as pessoas não têm mais paciência. Se não deu certo, se brigam, logo querem se separar'', diz Úrsula, logo complementada pelo marido: ''Está tudo diferente. Veja o trânsito, antes as pessoas eram mais calmas, hoje só gritam e querem passar rápido'', compara.


