Curitiba - A exigência da exclusividade é a principal vilã dos casamentos. É essa regra básica do relacionamento que pode estar colocando em xeque a instituição. É o que explicaria a quantidade de divórcios e - mais ainda - o gigantesco índice de infelicidade dentro das relações. Parece polêmico? É só uma das premissas que a psicanalista e sexóloga carioca Regina Navarro Lins defende no livro ''O Sexo no Casamento'', recém-lançado em Curitiba dentro do evento Sempre um Papo, da Caixa Econômica Federal. O livro foi escrito em parceira com o romancista Flávio Braga, casado há seis anos com Regina. É o primeiro da coleção ''Amores Comportados'', que tem dez volumes previstos.
A série vai trazer temas como ''Separação''; ''Amor a Três''; ''Fidelidade'' e ''Brigas de Casal'', títulos já definidos e que devem ser lançados até o final de 2007, pela Editora Best Seller. Os outros cinco volumes ainda devem ter seus temas e data de lançamentos definidos. Todas as obras porém, terão um mesmo formato: duas histórias de ficção, uma ambientada no passado e a outra na atualidade, comentadas posteriormente por Regina. As histórias atuais são todas baseadas em casos atendidos no consultório da terapeuta.
Em ''O Sexo no Casamento'', por exemplo, a história da jovem Ollena, que viveu aventuras e desventuras amorosas em casamentos sucessivos, em pleno século 14, se contrapõe à experiência de três amigas que vivem no Rio de Janeiro. Separadas pelo tempo, as duas histórias tem como ligação as dúvidas e a insatisfação sexual. O que mudou nessa distância secular? Regina não dá a resposta, mas satisfaz a curiosidade do leitor quanto ao tema tão comentado nos dias de hoje. Para ela, uma importante mudança na estrutura dos relacionamentos está por vir, ou ainda, já começou, embora as pessoas custem a admitir. Sobre essas alterações e sobre ''O Sexo no Casamento'', ela falou em entrevista à Folha. Acompanhe.

Como surgiu a idéia do livro?
Há bastante tempo eu pesquiso sobre relacionamentos amorosos. Em dezembro do ano passado, lancei com o Flávio (Flávio Braga), o ''Livro de Ouro do Sexo'', que é um amplo painel sobre a sexualidade. Foi uma experiência ótima e tivemos a idéia de trabalhar juntos novamente. Como ele é romancista, nessa coleção atual nós juntamos ficção com ensaios, que são meus comentários sobre as histórias. Esse primeiro tema foi escolhido porque é, sem dúvida, o maior problema enfrentado pelos casais. É o que eu mais escuto no meu consultório. Coisas como ''Eu amo meu marido. Não quero me separar dele, mas não quero mais fazer sexo com ele. Quero só dormir abraçadinha com ele me fazendo cafuné''. Isso é muito comum. E é ruim para o homem que fica com a auto-estima baixa e pra mulher também, que tenta esquecer que o sexo existe. É ruim para ambos, porque as pessoas confundem amor com tesão. Você pode amar uma pessoa e não ter desejo sexual por ela. Eu escolhi esse tema justamente para levantar essa discussão.

Mas por que isso acontece?
Isso acontece por várias razões. Excessiva intimidade. Excessiva familiaridade. Rotina. Você não ter mais mistérios. Mas o principal vilão é a exigência de exclusividade. As pessoas se tornam dependentes no casamento. Uma depende emocionalmente da outra. Você não faz nada para não perder o outro. Você tem pavor de fazer alguma coisa e ter uma ruptura. Então você fica ali, dependendo emocionalmente. Não tem novidade. Tem aqueles pactos de exclusividade. Você não pode mais transar com ninguém. Então não tem descoberta, não tem conquista. E isso vai fazendo com que as pessoas vão se desinteressando. Tornando-se irmãs.

Mas você baseou essas informações em alguma pesquisa informal? Tem, por exemplo, como afirmar que a cada dez pacientes seus, 90% tem esse tipo de problema?
Eu não fiz uma pesquisa. Mas eu percebi isso no dia-a-dia. As pessoas procuram muito sobre esse tema. No meu site sobre relacionamento amoroso (www.camanarede.com.br) eu recebo muitos e-mails falando sobre isso. As mulheres dizendo que amam o marido, mas não querem mais transar. Os homens dizendo que amam a mulher e gostariam de fazer sexo todos os dias, mas que, se deixarem, elas só querem de seis em seis meses ou nunca. Isso acontece muito e mais com as mulheres. As mulheres perdem muito mais o tesão no casamento do que os homens.

Mas é bom frisar que o seu livro não é um manual, que ensina a solucionar esses problemas, não é? Aliás, existe solução?
São soluções individuais. O que eu acho importante é que as pessoas reflitam sobre esses temas. Sobre a vida. Sobre o modelo de casamento que se vive. Eu acho que o modelo de casamento que se vive atualmente é muito frustrante. É muito insatisfatório. O casamento se torna uma série de regras, de normas, de leis que as pessoas têm que se enquadrar. Por exemplo, essa coisa de exclusividade. É óbvio que é forçar a barra. A gente sabe disso. As pessoas têm relações extraconjugais, sempre tiveram. Antigamente era uma coisa aceita para o homem. A mulher nem questionava isso. Mas depois da pílula anticoncepcional houve uma grande mudança. Acho que estamos vivendo um momento muito interessante hoje que é essa mudança de mentalidade.

Você considera que esse momento e essas mudanças serão históricos na sociedade?
Sim. Foi uma mudança que começou com a pílula, na década de 60. Hoje as pessoas estão buscando viver com mais satisfação porque diminuiu aquela censura social. Os valores estão mudando. E nessa coleção estamos abordando exatamente isso dentro do aspecto do relacionamento amoroso. Por exemplo ''Amor a Três''. Por que escolhemos esse tema? Eu recebo inúmeros e-mails de pessoas que querem fazer sexo a três ou que estão amando duas pessoas. As mudanças são grandes nessa área.

Com essa mudança, muda também a estrutura familiar?
Sem dúvida. A tendência pelo que me parece é que cada vez menos pessoas vão querer se fechar numa relação a dois. As pessoas vão querer ficar mais abertas para vários relacionamentos. Por exemplo, na área do amor. Esse amor romântico que todo mundo fala, que todo mundo deseja e que causa exaltação. Esse amor vai sair de cena, felizmente. Porque ele é calcado na idealização, na projeção. Você não se apaixona pela pessoa real, você inventa uma pessoa. E deve surgir um novo tipo de amor. Mais baseado na solidariedade, na amizade. E com esse amor romântico saindo de cena, vai mudar essa cobrança de exclusividade sexual. Eu acredito que daqui a algum tempo será possível que as pessoas escolham alguns parceiros e não mais um parceiro para tudo. Claro que sempre vão existir pessoas que queiram formar um casal apenas. Mas acho que não vai ser a maioria.

E dentro dessa alteração, você acha que a criação dos filhos está ameaçada?
Eu acho o seguinte: esse modelo de família em que a gente foi criado - pai, mãe e filho - já foi uma transformação. Esse tipo de família surgiu depois da Revolução Industrial. Começou no século 19. Antes eram grandes famílias e todos moravam juntos. Mas esse tipo de formação já está saindo de cena porque agora você vê famílias formadas por filhos do primeiro casamento, do segundo, do terceiro. E isso é natural. É possível ainda que isso se transforme mais. As pessoas falam ''coitadas das crianças''. Mas criança não sofre com a separação, não sofre em morar com a mãe ou com o pai. Criança sofre com a incompetência dos pais na hora da separação. Isso é o que faz a criança sofrer. Agora se o pai ama a criança, se a mãe ama a criança. Para ela não importa com quem vai morar. Os pais é que criam um clima terrível em cima da separação. Eu acredito que criança precisa ser amada, respeitada, valorizada. Se os pais estão juntos ou não, não faz diferença.

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