Dizem que os cachorros são os melhores amigos do homem, mas o que dizer dos velhos e bons livros que nos acompanham no decorrer da vida? Seja um livro para apenas relaxar e esquecer da vida, ou uma literatura mais complexa, a palavra escrita parece sempre compartilhar das nossas emoções, que quase sempre são sempre fundamentais na hora da escolha do livro que iremos ler, com exceção dos livros didáticos principalmente na época das provas , que aí não temos como fugir. Tem até aqueles livros que já estão gastos de tanto serem folheados, mas que ainda são preservados por sempre transmitirem algo novo, por mais que já tenhamos lido mais de ''mil vezes'' a mesma coisa. O amante da literatura sempre sabe onde encontrar uma boa história e não é incomum terminar um livro com o espírito renovado e já sedento por uma nova incursão literária.
Algumas vezes a escolha dos livros está diretamente relacionada à profissão do leitor, outras vezes não; e não é incomum encontrar aqueles que declaradamente são fascinados pelo gênero ''água-com-açúcar'', com muito romance e final feliz garantido. Há também os que gostam dos livros de auto ajuda, que, preconceitos à parte, vêm atingindo gradativamente os rankings dos mais vendidos no país.
No caso da astróloga Yara Ramos, 67 anos, a preferência por assuntos místicos sempre influenciou os livros que gosta de ler, mas ela confessa que não resiste a um bom livro de poesia, gênero no qual também gosta de se aventurar, produzindo os próprios poemas. Um dos poetas que mais admira é Pablo Neruda e credita a ele a sua maior inspiração poética. ''Não tenho tempo de ler nem de entrar na internet, mas não resisto aos livros de poesia e que tratam de misticismo, que além de ser o meu trabalho, também é um tema que me dá muito prazer'', afirmou.
Yara conta que já leu todos os livros do escritor Paulo Coelho e frequentemente volta a tirar da prateleira o seu exemplar de ''O Diário de Um Mago''. Questionada se nos momentos de tristeza tem alguma preferência literária, disse que nessa situação prefere música à leitura. ''Gosto de ouvir música para relaxar, meditar. Eu prefiro me confortar no plano espiritual, com oração e meditação. Livro é diversão, distração, mas que também proporciona aprendizado'', destacou Yara, que na juventude gostava de ler livros do Guimarães Rosa, Érico Verissimo e J.G. de Araújo Jorge.
Fã dos livros ''água-com-açúcar'', do estilo ''Júlia'', ''Sabrina'' e afins, a secretária-executiva R.C., 40 anos, chega a ler quase que um por dia. O anonimato, a pedido dela, foi para evitar constrangimentos com a filha, que junto com o ex-marido, sempre a critica por gostar de ler os tais ''livros açucarados'', embora ela nunca tenha deixado de praticar a ''literatura séria'', lendo clássicos consagrados. E diferente do padrão em que muitas vezes as pessoas tentam enquadrar os que gostam desse gênero, dizendo que é o tipo de leitura que apenas as donas de casa praticam R. tem dois cursos superiores e não tem vergonha de assumir a sua preferência. ''É uma leitura descompromissada. Pode até ser considerada uma cultura inútil, mas é gostosa. E, se você prestar atenção, sempre tem alguma coisa para aprender com esses livros, que trazem informações sobre a geografia e os costumes de diversos países'', ressalta a secretária-executiva.
Os seus livros têm alta rotatividade. Ao terminar um exemplar, rapidamente já passa para um sebo ou banca mais próxima. ''E não me canso de ler esse tipo de livro. É uma forma de sair da realidade, mas isso não quer dizer que eu acredite nessas histórias românticas. Sou bem 'pé no chão''', garante R., que acrescenta que gosta de ler de tudo, com exceção de gibis e livros de poesia.
R. conta que começou a ler os livros ''água-com-açúcar'' meio por acaso. Na época, foi até a banca para comprar um revista de corte e costura e ficou encantada com a capa de um livro, que trazia uma paisagem da Grécia. ''Fui atraída primeiro pela paisagem, mas ainda prefiro esse tipo de livro do que as bobagens da televisão'', confessou R.. ''Por que só temos que ler coisa séria? É bom ter uma realidade açucarada, em que a gente nem vê a hora passar e não tem preocupação'', acrescenta.
O consagrado escritor Miltom Hatoum também trata a literatura como ''refúgio'', mas prefere optar por versões até mais duras da realidade como suporte de enfrentamento da vida real. ''Para mim, a literatura é um refúgio mesmo. Em alguns momentos, especialmente os de crise, a gente se cansa de tanta realidade'', afirma o escritor amazonense. Só que, ao ler, o autor do recém-lançado ''Cinzas do Norte'' diz que o que busca - e encontra - é justamente mais realidade. ''Uma realidade mais profunda, a da verdade das relações humanas, que nos faz compreender tudo melhor, mais claramente.'' Os ''refúgios'' preferidos de Hatoum são os contos de Machado de Assis e Gustave Flaubert.
Milton Hatoum renova seu vínculo com Machado de Assis e Flaubert porque considera o mundo ficcional deles próximo ao da Manaus de sua juventude. ''Eu lia e era como se eles falassem da minha contemporaneidade.'' Mas também admira o estilo. ''A literatura é a vida elaborada pela linguagem'', resume.

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