COMPORTAMENTO - Falar de sexo é natural
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segunda-feira, 13 de março de 2006
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Como eu nasci? Como são feitos os bebês? Quando eu vou ter pêlo no corpo? E quando eu vou poder usar sutiã? A mulher fica menstruada todo dia? Dói para cortar o cordão umbilical?
Quem tem contato com crianças, principalmente a partir dos nove anos de idade, sabe que essas dúvidas fazem parte do repertório desse público nessa faixa etária que começa a perceber com mais atenção, até no próprio corpo, as primeiras diferenças entre o corpo do menino e da menina. Na sala de aula, muitas vezes a professora é o alvo de muitas dessas perguntas e é fundamental que ela esteja bem preparada para lidar com naturalidade diante das questões relacionadas à educação sexual, principalmente quando a criança se sente constrangida em fazer esse tipo de pergunta em casa. Respeitar o limite da criança também é importante e é só em clima de muita confiança que ela irá se abrir e falar sobre suas dúvidas na área da sexualidade.
Caio de Oliveira Gouveia, 9 anos, contou que os pais são abertos ao diálogo, mas que ele fica ''meio envergonhado'' de perguntar sobre ''essas coisas''. ''É meio esquisito quando as crianças perguntam sobre 'essas coisas'. Os meus pais sempre fazem uma cara de preocupados, achando que está acontecendo alguma coisa na escola...não entendem que eu simplesmente estou curioso'', afirmou. Ele disse que tem um irmão mais novo e que ainda tem dúvidas sobre como os bebês são feitos. ''Não sei muito bem como o neném foi parar lá.''
Sua colega Glória Pieroli Dias, 9 anos, tem uma irmã de 13 anos que ainda não usa sutiã, mas contou que a mãe já comprou o primeiro sutiã da irmã, que ficará como lembrança no futuro. ''Prefiro conversar com minha mãe sobre essas coisas, mas fico um pouco envergonhada de falar sobre isso. E ela já falou que quando eu ficar maior a gente vai conversar mais'', destacou Glória, que informou o amigo Caio, durante a entrevista, que os bebês podem nascer ''cortando a barriga'' ou da ''pexeca''. ''Eu falo 'pexeca', mas sei que o nome científico é 'vagina''', ressaltou Glória. Caio, por sua vez, também relatou que usa o termo ''nanana'' quando quer se referir ao pênis. ''É que parece uma banana, né?'', brincou o colega.
A aluna Yane Rossi Tonin, 10 anos, também deu a sua opinião: ''Os meus pais falam muito sobre trabalho e fico um pouco envergonhada de perguntar sobre esse assunto. Às vezes converso com o meu irmão de 12 anos sobre essas coisas e com a professora'', acrescentou.
Os três estudam na Escola O Peixinho e são alunos da 4 série do ensino fundamental. Atualmente estão começando a trabalhar o conceito de sistemas e no último bimestre, dentro da disciplina de Ciências, estarão abordando de forma mais enfática o sistema reprodutor feminino e masculino. Aí sim, o momento ideal para debater tantas dúvidas pertinentes à idade, que culmina com uma palestra com uma psicóloga sobre educação sexual.
A professora Vanessa Garcia, 25 anos, reforçou a importância de se tratar o assunto com naturalidade, mas sem banalização. ''Às vezes falta comunicação em casa, mas as crianças continuam tendo acesso aos meios de comunicação e contato com crianças mais velhas. Algumas até já demonstram uma certa malícia quando tocam no assunto e aí entra o papel da professora de esclarecer com naturalidade a curiosidade que elas apresentam.''
O trabalho, segundo ela, é gradativo, para que as crianças recebam as informações de forma adequada. ''E enfocamos não só o conhecimento do corpo, mas também que tudo tem o seu tempo. Nunca podemos nos esquecer que elas são crianças e que ainda não têm autonomia sobre o seu corpo. Trabalhamos com a idéia de que o sexo é uma forma natural de carinho, mas que só deve acontecer no momento certo, quando elas têm maturidade, responsabilidade e condições de escolher uma pessoa que possa compartilhar a vida com elas'', argumentou.
Como dica de preparo para esse trabalho, Vanessa recomenda, além de muita pesquisa, incluindo até livros que abordam a temática da sexualidade ela gosta de trabalhar com os alunos o livro ''De onde viemos?'' (Peter Mayle/Editora Nobel) , a troca de experiência com outros profissionais que já realizaram esse tipo de abordagem. ''A vivência prática é fundamental para tratar o tema'', concluiu.


