Em geral, um bom papel é visto como uma bênção para um ator. Mas, na prática, pode ser uma maldição. Não são poucos os atores que se saem tão bem ao fazer um certo tipo de personagem que, a partir daí, só são chamados para fazer papéis parecidos. Mas há também o caso oposto. Como quando os atores até têm carisma, mas o pouco talento acaba limitando o leque de personagens na hora da escalação. Seja qual for o caso, a tendência nas produções de tevê é encaixar os atores em papéis manjados, que facilitem o trabalho do público na hora de identificar que tipo de personagem é aquele. Por isso, entra novela, sai novela, muitos atores sempre aparecem como mocinhos, vilões ou simplesmente símbolos sexuais. ''Meus papéis sempre têm alguma sensualidade. Sou grandona e extravagante, não dá para negar'', constata Cláudia Raia, que costuma ainda acrescentar uma pitada cômica em seus personagens.
Danielle Winits também não consegue escapar do estereótipo da mulher voluptuosa. E a incontestável beleza da atriz é explorada em todas as criações que representa. Isso ocorre desde a estréia na carreira, como a sugestiva Eva, na minissérie global ''Sex Appeal'', em 1993. Essa imagem foi reforçada por aparições com corpo à mostra e conotação sexy em suas inúmeras parcerias com o autor Carlos Lombardi. A atriz, no entanto, prefere enxergar seus papéis pelas diferenças que têm um do outro e encarar a marca da sensualidade como algo natural, que ela garante que não chega a incomodar. ''O lado sensual é só um detalhe. Trabalho componentes diferentes na hora de interpretar cada papel'', justifica.
O próprio Carlos Lombardi usa argumentos parecidos com os da atriz para defender os personagens que cria. Segundo ele, a preocupação em estigmatizar determinados atores já o assombrou um dia. Atualmente, o autor afirma que não está nem aí. Segundo Lombardi, muito se disse que a virgem e ingênua Manoela, feita por Danielle Winits em ''O Quinto dos Infernos'', era igual à personagem que ela fez em ''Uga Uga''. ''Todos diziam que ela era igual à pândega loira burra. Eu sei que não era e, honestamente, deixei de me preocupar com isso'', conforma-se. O autor também chama a atenção para o fato de que só repete atores em suas diversas novelas quando acredita ter plena certeza de que está dando oportunidade a eles de fazer algo diferente do que já fizeram. ''Em 'Vira-Lata' inverti o elenco pensando nisso. Pus o Humberto Martins para fazer o papel do Marcelo Novaes e vice-versa justamente para evitar o estigma'', defende-se.
Já Tiago Santiago julga que é perigoso repetir profissionais em papéis semelhantes justamente por acreditar que eles podem ficar marcados. Apesar de ter levado boa parte do elenco de seu trabalho de estréia da Record, ''A Escrava Isaura'', para atuar em ''Prova de Amor'', ele se preocupou em criar personagens diferentes para o elenco. ''Todos os atores das duas novelas tiveram em papéis sem qualquer semelhança entre si'', garante.
Quem sofreu com o repeteco de tipo foi Humberto Martins. O ator, que hoje faz o feitor Bruno, em ''Sinhá Moça'', era um dos ''descamisados'' obrigatórios nas tramas de Carlos Lombardi. ''Na minha novela o Humberto está fazendo um papel que talvez nunca tenha feito'', defende o autor, Benedito Ruy Barbosa. Na época de ''Kubanacan'', de Lombardi, Humberto ficou tão incomodado com a condição de ''descamisado'' que ameaçou abandonar a carreira. Agora não aceita nenhum papel que explore seu corpo em ''América'', sua última novela, se recusava até a aparecer de braços nus.
Em ''Sinhá Moça'', quem não escapou de um velho estigma foi Elias Gleizer. O Frei José, personagem que ele faz na trama de Benedito, é o sexto padre que o ator interpreta na tevê em seus 47 anos de carreira. Antes, ele já tinha incorporado religiosos em ''Terra Nostra'', ''Salomé'', da Globo, ''Dona Santa'', ''O Meu Pé de Laranja Lima'', ambas da Band e ''Rosa-dos-ventos'', da Tupi.
Não são só atores com muito tempo de estrada que enfrentam a repetição de papéis. Marcela Barrozo, a Antônia, de ''Malhação'', está apenas em seu quarto trabalho na tevê. E desde a estréia, em ''Sabor da Paixão'', de 2002, até agora só interpreta meninas precoces. Mas Marcela está longe de se incomodar com isso. ''Tento sempre fazer de maneira diferente para que não digam que são iguais'', reconhece.

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