O primeiro verso de um réquiem da juventude diz que a vida é um dia perfeito e que, mais tarde, quando escurecer, apesar de toda inconsequência, será possível ouvir Lou Reed, cantando ''Perfect Day'', enquanto voltamos para casa.
Se conseguirmos voltar ilesos, depois de transgredirmos todos os limites, a gente poderia até cantar os versos de Reed - compositor inspirado pelo grande fora-da-lei da literatura, William Burroughs, o estereótipo do drogado beat e homossexual: ''Eu pensava que eu era qualquer um, uma pessoa boa''. Porém, a vida não pode ser lida nessa partitura, apesar de acreditarmos que, além de bons, na juventude somos eternos.
No filme ''Trainspotting'', a música ''Perfect Day'' foi o réquiem da morte por overdose do personagem do ator Ewan McGregor, que aparece na tela como um ícone da vida desperdiçada.
Ao contrapormos à ficção o impacto do depoimento de um jovem londrinense, que arrisca a vida em rachas durante a madrugada, ouvimos um acorde ainda mais triste dessa sensação de onipotência. ''Quando a gente está dirigindo parece que fica cego. Não vê nada. É uma emoção misturada com medo, que faz o seu corpo inteiro formigar. Tudo fica eletrizante. Quando bebo então, não penso no que vai acontecer. Só mesmo quando estou sóbrio é que tenho a idéia de que algumas coisas são perigosas. É muito bruto'', compara o estudante de 19 anos.
Essa suposta busca de liberdade pode dar início a um triângulo perigoso entre os jovens, o álcool e as drogas - uma relação passional em que eles se tornam vítimas.
Ao abrirmos um capítulo de discussões, apontando uma espécie de manual de sobrevivência urbana ou de educação para a balada, vale citar uma pesquisa publicada nos Cadernos de Saúde Pública com o tema ''As Características dos Acidentes de Trânsito e das Vítimas Atendidas em Serviço Pré-hospitalar em Cidades do Sul do Brasil 1997/2000''.
O levantamento realizado em Londrina, analisando 14.474 vítimas atendidas pelo Serviço Integrado de Atendimento ao Trauma e às Emergências (Siate), constatou que 70% eram do sexo masculino entre 10 e 39 anos, sendo que 40% desse total representavam motociclistas.
As estatísticas de 2005 da Companhia de Trânsito revelam que 2.488 acidentes envolvendo jovens entre 15 a 24 anos aconteceram em 2005, sendo que 22 vítimas morreram e outras 951 ficaram feridas.
Este ano, desde janeiro até julho, já ocorreram 1.250 acidentes com jovens de 15 a 24 anos dos quais oito vítimas morrerem e 486 tiveram algum ferimento.
Professora do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade Estadual de Londrina (UEL), a enfermeira Selma Maffei de Andrade, que participou da pesquisa, aponta que uma das razões do grande número de acidentes com jovens é a exposição maior ao trânsito noturno do que os adultos.
Outro dado para as estatísticas é a falta de experiência ao volante.
''Não creio que sejam irresponsáveis. Porém, a juventude é uma fase em que as pessoas têm a sensação de liberdade e, no grupo, isso acaba sendo reforçado. Como a gente não conta com uma fiscalização do poder público para coibir, isso acaba sendo aceito culturalmente. Já entre os jovens, essa situação é valorizada'', comenta Selma.
Para o sociólogo Cezar Bueno, professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) e da Unifil, atualmente, os jovens têm menos medo da morte. ''Hoje, os desafios da sociedade são maiores e as pessoas estão em busca de conquistas, fazendo com que os jovens não avaliem os riscos. Antigamente, a morte fazia diferença. As pessoas não gostavam de ver alguém morto. Hoje, a gente passa por uma vítima de trânsito e não liga. O jovem redefiniu o tempo. Para ele, o passado não tem sentido e o futuro está distante demais. O que importa é o presente, que nessa avaliação é eterno'', destaca Bueno.
Se pudéssemos ilustrar um suposto manual para os pais dos tempos modernos com os últimos versos de Lou Reed em ''Perfect Day'', poderíamos dizer que vamos colher o que plantamos - recomendação que Bueno traduz ao afirmar que muitas famílias procuram oferecer tudo aos jovens.
''Os pais querem dar aos filhos a melhor escola, as mais conceituadas universidades. O que esses pais consideram investimento nos filhos, eles não vêem como uma ajuda, mas um direito adquirido. Então sobram as transgressões. Se você não tem perspectiva de futuro, não terá utopia, se tornando embrutecido para os acontecimentos do presente'', comenta o professor.
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