Curitiba - São poucas as mulheres que não tem no currículo das relações uma história de algum cafajeste para contar. Nem que seja uma história cômica, embora seja difícil achar graça nesse tipo de homem. Para quem teve a sorte de nunca conhecer alguém assim, existe no cinema uma vasta biografia sobre o tema. Um ícone da sétima arte nesse assunto, morreu essa semana. Jece Valadão, que protagonizou o filme ''Os Cafajestes'' (Ruy Guerra, 1962) é conhecido como o maior cafajeste do cinema nacional por seus papéis, participou de mais de cem produções como ator, diretor ou autor, sempre interpretando tipos canalhas. Mas será que o esterótipo do cafajeste, vivido na ficção e na realidade por Valadão - ele casou seis vezes, teve oito filhos e não omitia suas aventuras extra-conjugais, antes de se converter à vida religiosa - ainda sobrevive?
Numa pesquisa informal feita pela reportagem da Folha, as pessoas se dividiram nas respostas. Há quem acredite que o cafajeste não é exatamente uma pessoa ruim e que existe até um certo glamour no termo. Mas isso, frisa-se é mais ligado aos anos dourados, à mesma época em que Valadão reinava no mundo artístico e fora dele. Na já distante década de 70, ser um cafajeste estava ligado a um estilo de vida. ''Muita gente copiava esse estilo americano. Primeiro era o James Dean, depois isso chegou ao Brasil, como o próprio Jece Valadão, que virou um ícone dos cafajestes brasileiros'', lembra o produtor cultural curitibano Carlos Fernando Mazza, mais conhecido como Mazzinha (irmão do colunista da Folha, Luiz Geraldo Mazza).
Ele próprio foi membro do ''Clube dos Cafajestes'', uma confraria para lá de informal cujas reuniões aconteciam quase que diariamente no antigo bar Castelinho, no Rio de Janeiro. ''O cafajeste era aquele homem abastado, que tinha mais de uma namorada e fama de conquistador'', resume Mazzinha, com uma ressalva: ''Tanto naquela época quanto hoje, existiam e existem os cafajestes de verdade. Os caras que exploram as mulheres, os cafetões ou os políticos sanguessugas , mas esses não entram nesse glamour do cafajeste que o Valadão protagonizou'', conta.
Mazzinha chegou a conhecer o ator e encontrá-lo em alguns eventos. ''O estilo dele era bastante copiado. Era comum encontrar nas ruas, nos bares, nas casas noturnas, o cara de camisa aberta, com medalhão, sapato branco... Nessa época estava muito na moda calça boca de sino, o figurino do cafajeste'', recorda. O produtor revela no entanto que ele próprio não se considera um integrante da espécie. ''Meu berço não me permitia'', brinca, numa alusão aos cafajestes playboys, mas lembra algumas brincadeiras típicas da confraria de que participava: ''Ficávamos em um grupo, de costas para praia, enquanto um de nós ficava de frente vendo quem passava e perguntando 'se comeríamos'. Se a resposta fosse sim, existia um código de honra que exigia que cumpríssimos a promessa, fosse a mulher feia ou bonita''.
E nos dias atuais, os cafajestes ainda existem ou apenas mudaram de nome? Ou será que não se fazem mais cafajestes como antigamente? Para Mazzinha, o glamour do cafajeste dessa época desapareceu. ''Hoje existe muita informação e falta de tempo. As conquistas ainda existem e sempre vão existir, mas a frieza das pessoas acabou com a graça daquela época'', analisa. Além disso, ele complementa ''não dá para facilitar, como você vai saber se o cara é um cafajeste só no tipo ou de verdade?''
Para a arquiteta Camila Fabre, de 24 anos, cafajestes sempre vão existir. ''E o pior: tem gente que acha bonito'', diz. A moça gosta muito de dança de salão, mas sabe que lugares que oferecem esse tipo de atração são terrenos férteis para os cafajestes de plantão. ''A dança tem essa coisa de conquista e tem muita gente que se aproveita disso'', comenta. Para a arquiteta, o cafajeste de 'ontem' é o galinha de hoje. ''Aquele cara que fica em cima e, depois que fica com você, desaparece'', explica.
Ela diz já ter sido vítima dessa perigosa espécie. ''O cara te conquista, insiste, faz você se sentir importante, aí você fica com ele e no outro dia ele finge que nem te conhece. Eu acho isso o cúmulo, a relação não precisa ir em frente, mas se ele te tratou bem antes, por que não te trata bem depois que ficou?'', questiona. Segredos de cafajestes.

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