As velhas jukebox resistem à era do iPod. Observadas de longe, há quem as confunda com máquinas caça-níqueis ou com jogos de fliperama. Mix de caixa de música e vitrola, elas tiveram o auge entre as décadas de 40 e 60, quando eram coqueluxe nas lanchonetes americanas com seu charmoso design inspirado em Cadillacs, naves espaciais e até OVNIs.
Em Londrina, alguns modelos podem ser encontrados animando frequentadores de dois bares na região central da cidade. A maioria dos usuários desconhece o nome do aparelho. ''Jukebox? Eu não sabia. Eu chamo de máquina de música'' diz a estudante Larissa Linares, sentada na mesa ao lado de amigos no bar Doog's.
''Geralmente, eu seleciono músicas do O Rappa, de rock e de MPB. O legal dessa máquina é que a gente ouve o que a gente quer. Nós é que escolhemos as músicas'' completa ela. O Doog's é um dos locais em que os clientes se divertem colocando fichas na jukebox para ouvir as músicas de sua preferência. Cada ficha dá direito a duas canções.
O acervo de CDs da casa é variado abrigando todos os gêneros populares incluindo títulos de Rolling Stones, U2, Bob Marley, Prodigy, Oasis, Racionais MC's, Red Hot Chili Peppers, Tribalistas e Zeca Pagodinho. O estudante Eduardo José Lopes Júnior, 18 anos, frustrou-se ao procurar músicas da dupla sertaneja Edson & Hudson. ''Não tem nada deles, aí acabei escolhendo uma música do Rio Negro & Solimões'' conta.
O acervo inclui coletâneas jukebox de videoclipes, que são exibidos num telão acoplado ao aparelho. Segundo o proprietário da casa, Marcio Adriano Gil Imamura, a máquina é bastante acionada nas noites de sábados e domingos. Na parada de sua jukebox, ele surpreende a reportagem ao informar que a música mais executada nos últimos meses é ''Abre Essas Pernas'', dos Velhas Virgens. Quem poderia imaginar que a banda paulistana estivesse com toda essa moral entre o público londrinense?
No Armazém Bar & Aperitivos, por sua vez, a lista de mais tocadas na jukebox instalada num canto do salão destaca bandas como Pearl Jam, System of a Down, Megadeth, Linkin Park e Ozzy Osbourne. ''O povo daqui gosto de rock'' afirma o proprietário da casa, Jean de Souza Pera. ''Aqui, a música nacional é pouco tocada. Alguns pessoas ainda cantam junto quando rola um Raul Seixas, um Nando Reis ou uma Legião Urbana. Mas a preferência geral é rock''.
Segundo ele, o acervo de CDs que abastece a máquina é permanentemente renovado com os lançamentos. ''Já coloquei mais de mil CDs ali, estou sempre mudando'' salienta. Mas a MPB é vetada no repertório. ''Tem um CD da Marisa Monte que, quando toca, a mulherada gosta. Mas só tem ele lá'' frisa.
A estudante Alessandra Aparecida de Jesus reclama da exclusão: ''Acho que deveria ter todo tipo de música e não apenas rock pesado. Não vejo a menor graça nessa barulheira que, ainda por cima, é cantada em inglês, que eu não entendo''. Na mesa, ao seu lado, o também estudante Roberto de Oliveira lamenta a demora para ouvir as músicas que garimpou na máquina.
Ele conta que usou três fichas para selecionar músicas das bandas Guns N' Roses, Linkin Park e The Calling. ''Tenho que esperar, porque um cara comprou 16 fichas antes de mim'' conforma-se. Jean, o proprietário, lembra que a concorrência às vezes é grande diante da velha jukebox. ''Quando o bar está lotado, é a maior briga para colocar som'' conta. ''Já aconteceu da pessoa ir embora sem conseguir ouvir as músicas escolhidas por causa da fila. Como as músicas ficam na memória da máquina, elas acabam tocando só no dia seguinte''.
A estudante Daniela Gonçalves de Oliveira foi uma das que já entupiram a jukebox de fichas. Numa noite, colocou 39 fichas de uma só vez. Foi um dos recordes na casa. ''Venho aqui por causa da máquina. Gosto de chegar cedo e escolher as músicas que quero ouvir'' explica a garota. Desta vez, ela selecionou faixas de Janis Joplin, Alanis Morissette, Linkin Park, Guns N' Roses e Pearl Jam.


Máquinas velhas de guerra

  Parafernálias de baú, as jukeboxes surgiram no final da década de 30 coincidindo com a guerra. Teriam sido inventadas para entreter os recrutas e os jovens que estavam fora dos campos de batalha durante aqueles tempos sombrios. No início, os fabricantes produziram exemplares parecidos com as rádios-capelinhas. Posteriormente, adotaram o design dos OVNIs, que estavam em voga na época estampando páginas sensacionalistas dos jornais.
  Já na década de 50, os desenhos das caixas sonoras foram buscar inspiração em Sincas, Cadillacs, Impalas e carros similares da época de James Dean. Em Londrina, é possível encontrar outras jukeboxes espalhadas por ‘‘inferninhos’’, além de um modelo antigo aguardando um freguês num dos corredores do Center Shop da Rua Sergipe.(N.S.)

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