Compondo climas de trilha sonora
Em entrevista, Stela Campos fala de seu trabalho e da participação no movimento mangue beat
DivulgaçãoStela Campos: cantora busca sonoridades diferenciadasVocê participou desde o começo do movimento mangue beat, mas seu disco não traz nenhuma influência do tipo de misturas musicais que caracterizou o trabalho da maioria dos artistas da região. Você concorda?
É verdade. Meu trabalho não tem nada de maracatu, de fusões de ritmos regionais com guitarras, não tem nada disso, mesmo porque não sou daqui. Vim de São Paulo para passar uma temporada de férias de dois meses, e acabei ficando até hoje. Já são mais de 4 anos. Quando cheguei, o Chico Science não tinha nem lançado seu primeiro disco. A cena cultural era muito atraente, com muita gente produzindo coisas diferentes em várias áreas artísticas. Me envolvi com aquilo e acabei participando de vários projetos ligados ao movimento. Cheguei a produzir um programa de rádio chamado mangue beat. Foi esse pessoal, essa efervescência, que abriu minha cabeça para experimentar e ampliar meu leque de referências. Na verdade, mangue beat não é um estilo de som, mas vários. Há bandas com linguagens completamente distintas uma da outra. O que há de comum entre elas é a vontade de falar daqui para o mundo. E aí, dentro desse conceito universal, dá para encaixar meu trabalho.
Há passagens jazzísticas em seu disco, o que não é comum em se tratando de um trabalho pop. De onde vem essa influência?
A minha trajetória é bem diferente. Fiz o contrário da maioria dos músicos. Comecei cantando jazz quando ainda era uma pirralha, levada pelo meu irmão, que adorava o gênero e tinha uma grande discoteca. Frequentei casas noturnas de jazz, cultuando nomes como Billie Holiday e Charlie Parker. Mais tarde, cheguei ao rock e percebi que ele me dava mais liberdade para criar. Acabei montando a banda Lara Hanouska.
A presença da eletrônica também é marcante em seu disco. Você acha que ela é imprescindível hoje para se fazer música moderna e contemporânea?
Comecei a enveredar pela eletrônica porque estava me sentindo insatisfeita musicalmente com o formato guitarra-baixo-bateria, que achava limitado. E esses novos recursos me permitiam mais liberdade para criar sozinha. A eletrônica então passou a ser um instrumento a mais na hora de compor permitindo delirar, viajar, pesquisar timbres e texturas. O moderno talvez esteja nisso, nessa busca por uma sonoridade diferenciada.
Que não descarta a melodia...
Não acho que a eletrônica precise estar desvinculada do formato canção. Meu disco só tem canções. Já o definiram de várias maneiras, até como MPB com BPM (batidas por minuto). Não posso dizer que meu trabalho seja eletrônico, acústico ou rock. Acho que é uma grande mistura de tudo o que ouvi, uma coisa meio de fim de século que deve estar diluída na cabeça de muita gente. O que conceitua meu trabalho talvez seja o clima viajante de trilha sonora que está presente tanto no lado rock, nos momentos de MPB ou nos trechos de jazz.





