Complexo de Édipo por Almodóvar
Paulo Polzonoff Jr
De Curitiba
Almodóvar conseguiu duas proezas com seu último filme, Tudo Sobre Minha Mãe (Todo Sobre Mi Madre, 1999). A primeira foi desmistificar a si próprio como um diretor de filmes meramente sexuais, que fazia sucesso de crítica por ter este tema como central em seu supostamente restrito repertório. A segunda foi conseguir fazer um filme extremamente contemporâneo, que reúne sexo, violência, drogas, Aids, homossexualismo e até um pitada de anti-clericalismo, à la Buñel, sem cair em nenhum momento em clichê algum que este gênero de filme contém.
Tudo Sobre Minha Mãe conta a história de Manuela, belissimamente interpretada por Cecília Roth. Ela é uma mulher em constante fuga que, quando perde seu filho num acidente, resolve correr atrás do pai do menino, o transexual Lola (Toni Cantó), para pôr todos os pingos nos is. Entre a perda do filho e o reencontro com o ex-marido, Manuela acaba se envolvendo com Rosa (Penélope Cruz), uma freira em conflito consigo mesma e que acaba se tornando uma repetição do drama de Manuela e também a expiação para sua própria dor, e Agrado (Antonia San Juan), um travesti que rouba a cena com impagáveis gags sobre o submundo.
Apesar do forte conteúdo gay do filme, não se trata de uma obra panfletária. Longe disso. Ao fazer um filme de personagens tão absurdamente resignados com sua sexualidade, ele consegue transmitir toda a normalidade que há no fato de uma mulher continuar esposa de um homem que fez um implante de silicone ou de uma atriz lésbica às voltas com sua amante drogada, que depois acaba por casar-se e ter um filho. Às portas do século XXI, diz Almodóvar, não há espaços para bizarrices. Tudo é perfeitamente normal.
Vale ainda notar a ausência de personagens masculinos neste filme. Eles são três ao todo, mas aparecem tão pouco em cena que apenas um é digno de citação, Esteban (Eloy Azorín), filho de Manuela. Os outros dois passam ao largo da trama. O que dá um novo sentido ao dito de que todos temos um lado feminino. Homens e mulheres, gays ou não, trazem em si o desejo de tratar de uma cria, de tornar uma pessoa um ser feliz, passando, para isso, por cima de toda a intolerância possível. A palavra mãe ganha nova forma e outros parâmetros.
O título do filme se refere ao clássico A Malvada, de 1950, cujo título original é All About Eve, algo como Tudo sobre Eva. Num joguete delicioso, Almodóvar não só faz uma homenagem a Bette Davis, falecida há dez anos, como dá a Eva a dimensão da primeira mulher e primeira mãe. A citação, que parece alheia ao contexto, é a responsável por não deixar que Tudo Sobre Minha Mãe resvale para o moralismo. Todo o conflito entre mães e filhos reluzem sob os olhos azuis de Bette Davis.
Com Tudo Sobre Minha Mãe Almodóvar alcança o status de diretor maior do cinema europeu atual. Como nenhum outro, mistura em doses perfeitas drama, comédia, entretenimento e reflexão. Neste sentido, parece-se com Woody Allen, que, por sinal, é muito mais apreciado na Europa do que nos Estados Unidos. A comparação não é gratuita. Assim como o cineasta nova-iorquino, Almodóvar trata de temas espinhosos com certo cinismo e humor-negro antes só vistos nas piadas ácidas de Allen.
Diferentemente de Woody Allen, porém, Almodóvar não conseguiu resistir ao canto da sereia hollywoodiana. Terá seu novo filme produzido em Los Angeles, por um grande estúdio. Será que o diretor espanhol vai deixar-se envolver pela superficialidade e frivolidade de Sunset Boulevard? Tomara que não.





