Um alento, ver um filme brasileiro feito à unha, no sufoco, sem devaneios, pés no chão. ''O Quinze'' fechou a noite de abertura do 32º Festival de Gramado inaugurando a mostra de longas nacionais que concorrem aos Kikitos da categoria. Realizado pelo ator Jurandir Oliveira, o drama não esconde o escasso orçamento de R$ 1.200,00, captados com aridez quase tão grande quanto o sertão do Quixadá que retrata. Não é um grande filme, pode até não ser um bom filme, mas respira dignidade e boas intenções por todos os planos. Neste caso, as boas intenções não são aquelas que lotaram o inferno
No debate de ontem, Oliveira não deixou por menos e fez o elogio público: ''Nelson Pereira dos Santos é o grande mestre. Jamais teria feito 'O Quinze' se não tivesse passado pelas mãos de Nelson'', afirmou referindo-se a seu aprendizado fecundo com o grande diretor do Cinema Novo. ''O Quinze'' é uma homenagem escancarada à antológica adaptação que Nelson fez de ''Vidas Secas'', mas sem perder de vista a fonte literária criada por Raquel de Queiroz.
São duas as frentes da narrativa. Uma traz o drama de Chico Bento (o próprio Oliveira) e família em retirada, acossados pela histórica seca que flagelou o Ceará em 1915 - daí o nome da seca, do romance de Raquel e agora do filme. Pelo caminho em busca de água, comida e trabalho, o personagem vai perdendo seus poucos pertences: o cachorro Limpa-Trilho (reedição da Baleia do livro de Graciliano Ramos, materializada no cinema por Nelson), depois um filho que morre, depois outro que some e afinal um terceiro dado para alguém cuidar antes que morra também. Chico quase perde ainda a dignidade, mas se agarra ao sonho de mudança para um mundo melhor.
Na outra frente, a jovem professora Conceição (muito da própria Raquel de Queiroz em personagem autobiográfico) passa a morar em Fortaleza depois de também fugir da seca no sertão, às voltas com um romance afinal para sempre mal resolvido. O filme não faz chantagem, não arranca lágrimas. Mostra com honestidade e boa dose de talento um drama épico do povo brasileiro. Ou como diz o diretor, que já fez de quase tudo na vida: ''No meu filme nenhum personagem chora. Tem que engasgar, não quis mostrar lamentações. Chico Bento parte da terra calcinada como perdedor, mas na verdade é um vencedor, como acho que é o povo brasileiro. Quis mostrar a alma sofrida deste povo. Não sei se consegui''. Conseguiu.(C.E.L.J.)

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