Compêndio de gargalhadas
Roberta Jansen
Agência Estado
Galinha voa ou não voa? Depois de dezenas de garrafas de cerveja e horas de discussão sobre tão controverso tema, José Carlos Miéle e Ronaldo Bôscoli tomaram uma decisão radical: jogaram uma representante dos galináceos do 13º andar de um prédio. O destino da pobre ave, além de outras histórias, é contado no livro que o produtor cultural, compositor e showman Miéle está escrevendo. Sempre fui o contador oficial de histórias da turma desde o ginásio, disse. Estava na hora de publicá-las. A proposta é reunir episódios engraçados que aconteceram ao longo da carreira de Miéle, que envolvem pessoas famosas e personalidades do meio artístico e cultural.
O contrato foi assinado há 15 dias e Miéle já começou a relacionar as histórias que pretende contar no livro, cujo título provisório é Perdido na Noite. Já tenho umas 80 histórias bem divertidas, comenta. O livro, ainda sem data para ser lançado, sairá pela editora Irmãos Vitale, especializada em música.
Mas vamos à galinha e ao seu trágico destino. Sem datas, que Miéle tem horror a elas e não se lembra de nenhuma. Sabe-se, no entanto, que o caso aconteceu na época em que o Teatro da Praia estava sendo construído. Miéle e Bôscoli estavam lá, no 13º andar, acompanhando a obra e tomando cerveja. Foi quando começou a polêmica. Galinha voa?
Eu disse ao Ronaldo que galinha não voava, lembrou Miéle. Bôscoli, no entanto, defendia o oposto. Um contra-regra, que estava por ali, se meteu na discussão: Chefia, eu já trabalhei numa granja, galinha voa sim. Voa ou não voa, a discussão se estendeu por horas. O contra-regra propôs a solução para o impasse. Eu vou ali no aviário, compro uma galinha e a gente joga daqui de cima para ver o que acontece. A sugestão foi aceita imediatamente.
Nisso, chegou ao Teatro da Praia o presidente da Air France na época, Joseph Halfin. Ele pretendia convidar Miéle e Bôscoli para fazer um show a ser exibido durante a entrega do Prêmio MoliSre. Foi quando o contra-regra retornou, com a galinha debaixo do braço. Agora vamos tirar isso a limpo, exclamou Miéle, interrompendo abruptamente as negociações com Halfin.
A pobre ave ensaiou um vôo desajeitado e sumiu do campo de visão dos quatro, encoberta por uma marquise. O contra-regra foi ver o que tinha acontecido e logo retornou. Chefia, a galinha tá mortaça, será que a gente pode fazer uma canja? Autorização concedida, Miéle e Bôscoli voltaram-se para Halfin no intuito de continuar a conversa sobre o show. O homem estava mais branco do que um papel, lembrou Miéle.
Mesmo assim, fizemos o show e, depois, fui contratado por ele como mestre-de-cerimônia do MoliSre por 15 anos. Outra história já pré-selecionada envolve, por incrível que pareça, o mímico Marcel Marceau, o cantor e compositor Stevie Wonder e um homem que ganhava a vida soltando pum. Além, é claro, de Miéle e Bôscoli. Os dois últimos, em sociedade com Alberico Campana, tinham um restaurante ao qual deram o nome de Monsieur Pujol, Le Pétomane. O monsieur em questão era um francês que fazia shows de pum no Moulin Rouge. Dada sua habilidade única, apagava velas a distância, entoava a Marselhesa e outras coisas impublicáveis.
Marceau estava no Rio em temporada e ficou curioso ao descobrir que um conterrâneo seu, obscuro na própria França, dava nome a um restaurante carioca. Jantou lá uma vez e gostou tanto que combinou de voltar na noite seguinte com um grupo de 20 pessoas. Para agradar ao famoso mímico, Miéle convidou Elis Regina para cantar naquela noite. Foi um sucesso. Em determinado momento, eu e o Marceau estávamos descalços em cima do piano fazendo mímicas, lembrou Miéle. Tinha tanta gente no restaurante que tivemos de fechar a porta. A festa rolava animada quando um dos seguranças da casa entrou esbaforido à procura de Miéle. Ele me disse que o Mário Priolli, dono do Canecão, estava na porta, mas que não estava permitindo a entrada porque ele vinha acompanhado de quatro negões doidaços, contou.
Eu não podia barrar o Priolli e mandei que todos entrassem. Os negões doidaços eram Stevie Wonder e seus músicos, que tocaram e cantaram pelo restante da noite, acompanhados de Marceau e Elis Regina.
Não tenho a pretensão de escrever uma biografia ou coisa assim, explicou Miéle. Quero apenas reunir episódios engraçados, sem preocupação com datas ou ordem cronológica. No que depender das histórias, Miéle pode ficar tranquilo, o livro será um sucesso. Agora é ver se eu consigo passar tudo isso para o papel.





