Companhia de Dança de Lisboa apresenta 'Cabo da Boa Esperança', coreografia inspirada no poema de Camões
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domingo, 16 de abril de 2000
Por Karla Dunder 
São Paulo, 17 (AE) - Embalados pelas comemorações dos 500 anos de Brasil, a Companhia de Dança de Lisboa está no País em turnê com o espetáculo "Cabo da Boa Esperança". O grupo português também organiza um programa cultural que inclui workshops e ateliês coreográficos destinados a preparar crianças brasileiras, de quatro a dez anos, para participar da apresentação. Essa é uma maneira simbólica de mostrar o encontro cultural entre as antigas metrópole e colônia.
"Esses jovens bailarinos são preparados para fazer intervenções de quatro minutos no palco e já dá para notar quanto os alunos puderam aprender com os workshops e aulas", comenta José Manuel de Oliveira, diretor artístico da companhia. Os dançarinos mirins são convidados a fazer um desenho e uma composição sobre aquilo que aprenderam e tiveram oportunidade de conhecer. Alguns desses trabalhos ficarão expostos na Internet. "É uma maneira de incentivarmos as crianças à reflexão para, mais adiante, poderem formar uma opinião", justifica Oliveira.
A coreografia "Cabo da Boa Esperança" começou a ser preparada com um ano e meio de antecedência. Trata das viagens de além-mar, as conquistas dos portugueses e a consequente miscigenação cultural. A inspiração veio do "Canto Nono", poema retirado do épico "Os Lusíadas", do poeta português Luís de Camões. Para elaborar o espetáculo, Oliveira contou com o auxílio de Célia Gouvêa. "A Célia é pouco reconhecida no Brasil
infelizmente, porque ela é uma profissional muito competente", observa Oliveira. Filosofia - A Companhia de Dança de Lisboa entende que os bailarinos devem possuir formação no balé clássico e, após desenvolver essa técnica, devem partir para Martha Graham e, aí sim, desenvolver as técnicas do balé moderno e contemporâneo. "Acredito que o bailarino precise apostar na formação básica e clássica para depois experimentar", argumenta Oliveira. Além de formar bailarinos, a Cia. busca, também, a formação do público.
Para Oliveira, o público, tanto no Brasil quanto em Portugal, não está preparado para as performances mais ousadas ou contemporâneas. "Faz-se necessário apostar na dança e nos intérpretes, mas principalmente no público, porque se este não estiver preparado para entender as performances acaba afastando-se do teatro," explica Oliveira. Dessa maneira, o diretor artístico da companhia traz à tona uma discussão que estava esquecida nos anos 60.
Polêmica à parte, a principal proposta da Companhia de Dança de Lisboa é misturar culturas por meio da dança e música, desde a sua fundação, em 1984. No espetáculo atual, a trilha sonora conta com Carlos Paredes, Madredeus, Amália Rodrigues, Rodrigo Leão, entre outros. Também contou com a colaboração especial dos alunos da escola de Dança da Fundação Cultural do Estado da Bahia. "Foi uma oportunidade de professores e alunos trocarem experiências e, principalmente, de melhorar a qualidade do ensino", conta Oliveira.
"Cabo da Boa Esperança" desembarcou no Brasil em Salvador como homenagem a uma das primeiras cidades brasileiras. Foi apresentada em Porto Alegre, Brasília e poderá ser vista em São Paulo no dia 22, no Teatro Municipal. Já os workshops terão início quarta-feira. A turnê será encerrada em Belo Horizonte nos dias 28 e 29. A Companhia tem o patrocínio do Banco Bandeirantes, da Casa de Portugal e do Instituto Luís de Camões.


