Companhia americana faz releitura de obra de Pirandello
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de maio de 1999
Por Antonio Gonçalves Filho 
São Paulo, 27 (AE) - Pirandello certamente gostaria de ser lembrado pelo que proclama uma de suas peças mais conhecidas
"ciascuno a su modo". Se assim é, então a companhia americana Jean Cocteau Repertory pode montar "Seis Personagens em Busca de um Autor" do seu jeito, sem considerar tudo o que as montagens européias fizeram da obra. Pelo menos é o que pensa o produtor Jonathan Polgar. Ele está no Brasil com 16 integrantes do grupo para sete apresentações do espetáculo, a partir de hoje
no Teatro Alfa Real, com legendas em português. A rigor, nem precisaria. O tema da peça é apenas um pretexto para discutir o que é mais teatral, a vida no palco ou na rua.
A atualidade de uma peça que tem 78 anos pode ser discutível, mas a justaposição da realidade e da fantasia teatral preserva sua originalidade. No primeiro caso, a matriz do real seria um melodrama barato sobre um homem que joga sua mulher nos braços de outro. Solitário, frequenta o bordel de madame Pace e quase transa com uma das três filhas da ex-mulher. Quase. No momento crucial, a mãe interrompe o ato. Em seguida, a família perde duas filhas, uma por suicídio e outra por afogamento. Esse é o plot, mas não a peça de Pirandello.
Em 1921, a linguagem realista parecia insuficiente para Pirandello. Em busca de uma nova linguagem, ele acabou encontrando um velho teatro, que não mais fazia sentido numa época em que Picasso fragmentava a figura e os modernistas avançavam em direção ao futuro. Pirandello descobriu que seu problema era semelhante a de seus personagens, dependentes da imaginação de um autor para viver. É a busca da autonomia desses personagens rejeitados que transforma e divide o teatro antes e depois de Pirandello. Eles brigam com os atores e esses com os personagens, numa bizarra confusão entre fantasia, realidade e comédia. No fim da peça, não se sabe quem é mais falso, o personagem criado ou quem o representa.
Pirandello é suficientemente claro para dizer que a experiência e a arte redimem o ser humano, que um momento de emoção vale por toda uma vida programada e ditada por padrões morais rígidos. Experiência não falta aos atores da companhia Jean Cocteau Repertory. Segundo o produtor Jonathan Polgar, quase todos têm outras profissões. "Eles trabalham à noite no teatro e durante o dia são policiais, garçons e até editores de revistas científicas", conta. Por sorte, ao contrário da peça de Pirandello, eles não foram abandonados pelos autores e diretores. Formam uma família há 27 anos, sempre renovando seus integrantes.
O que torna essa montagem diferente, segundo Polgar, é a opção da diretora Eve Adamson por uma linha ilusionista. Os atores surgem no palco como um ato de magia pura e não segundo a rubrica de Pirandello, que apresenta a companhia de teatro em ensaio, mantendo-a assim no decorrer da peça para acentuar o caráter de improvisação. Polgar, na defesa dessa linha ilusionista, lembra o relativismo pirandelliano, afirmando que Eve Adamson não mudou uma palavra do texto original, mas tomou liberdades com o autor justamente porque ele foi o primeiro a lutar contra idéias estabelecidas em teatro.
"É claro que nas peças de Brecht optamos sempre pela intermediação de Eric Bentley, que melhor traduziu seu espírito, mas Pirandello é diferente", justifica. A companhia não se preocupa em desvendar o ritual do teatro, nem procura o distanciamento brechtiano, mas rompe com a relação estática entre palco e platéia sem a radicalidade de um Living Theatre. "Somos uma companhia de repertório que monta de Shakespeare a Pirandello, mas penetramos pouco no universo contemporâneo", esclarece Polgar.
O que ele quer dizer é que a Jean Cocteau Repertory não dialoga muito com David Mamet e outros autores modernos, apesar de já ter encenado peças de Tom Stoppard. Fundada em 1971 por Eve Adamson, pioneira da off-off Broadway, a companhia ficou, assim, mais conhecida por montar textos clássicos (os gregos, Molire) e autores que já entraram na eternidade (Beckett, Brecht). Passou longe da nova dramaturgia americana.
Serviço - "Seis Personagens em Busca de um Autor". Comédia. Direção de Eve Adamson. De quinta a sábado, às 20h30; domingo, às 18h30. De R$ 40,00 a R$ 50,00. Teatro Alfa Real. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, em São Paulo. tel. (011) 5693-4000.


