Como vai a Música Brasileira?
Francelino França
A Música Brasileira superou a fase de exotismo no exterior. Bananas is my business deixou de ser negócio de cantor. O Brasil musical vendido lá fora possui características diversas. Os norte-americanos e europeus recebem de braços abertos músicos como Hermeto Pascoal e Baden Powel, mas também caem no remelexo com a música pra pular brasileira.
A Música Brasileira é catalogada como World Music, uma espécie de balaio sonoro para inserir tudo o que não se enquadra na música americana. Nas lojas virtuais, como a Amazon, há compilações e seleções dirigidas especificamente ao público estrangeiro. O músico norte-americano David Byrne há muito divulga nosso suingue, como o CD Beleza Tropical 2. O selo Virgin, que possui uma megastore virtual, recomenda na página da World Music o CD Livro, de Caetano Veloso. Em outro site, da Tower Records, numa espécie de samba do crioulo doido, eles vendem o CD Música de Favela, em que fazem uma seleção de cantores que jamais subiram o morro. No mercado virtual, Tom Zé, Carlinhos Brown, Marisa Monte, Gilberto Gil e Caetano Veloso são badaladíssimos.
Aliás, Tom Zé, Caetano Veloso e Gilberto Gil tiveram seus nomes relacionados por críticos do jornal The New York Times, elegendo seus últimos trabalhos como os dez melhores do mercado fonográfico americano em 1998. Outras manifestações recentes dão conta que bandas pop estão sampleando trechos de músicas de Tom Jobim e fazendo sucesso. Além disso, novos nomes pipocam na grande mídia ianque. Recentemente, a rede de televisão CNN fez um especial sobre a nova música brasileira, agraciando músicos como Otto e Mestre Ambrósio.
Na semana passada, durante a Miden Americas, feira do mercado musical que aconteceu em Miami, falou-se do interesse que a música brasileira vem despertando, mas os negócios ainda são tímidos. Outro fato revelado durante a feira é que os grandes artistas brasileiros pertencem às gravadoras majors e dependem delas para lançar os produtos no exterior. Isso acontece timidamente, sem prioridade das gravadoras. Daí as independentes terem um papel importante no setor.
A Folha2, aproveitando a presença de importantes músicos durante o 19º Festival de Música de Londrina, reuniu três deles para falar sobre como a MPB é vista e percebida no exterior e também os reflexos da globalização no suingue brasileiro. Os músicos Luiz Otávio Braga, Roberto Gnatalli e Giovanni Luisi, entre outras revelações, afirmam que a Música Brasileira é reluzente quando se trata de prestígio, mas ainda não repercute como deveria. Ela estoura, vez ou outra, como modismo de verão, mais especificamente com música dançante de consumo descartável.
Luiz Otávio Braga é violonista e professor do departamento musical da UniRio. No 19º Festival de Música está ministrando aulas de violão popular. Viajou pela primeira vez ao Japão em 1979, momento em que se efetiva o interesse pela nossa música no Japão. Ele retornou mais quatro vezes àquele país para difundir o choro brasileiro no oriente, constatando a existência do choro japonês em várias localidades. Cantoras como Nara Leão e Elizeth Cardoso são reverenciadas pelos nipônicos.
Roberto Gnatalli, professor de História da Música Popular e Arranjos e técnicas Instrumentais da UniRio, também dirige a Orquestra de Música Popular em Curitiba. Giovanni Luisi, músico e compositor italiano, é graduado em composição e regência, composição de música para coral e piano. Há 12 anos se dedica à composição de trilhas sonoras para cinema, televisão e publicidade. A seguir, trechos do bate-papo com os três músicos realizado na última quarta-feira.
Até que ponto a Música Brasileira é conhecida no exterior. Ela é muito festejada ou realmente tem reconhecimento?
Luiz Otávio A Música Brasileira possui reconhecimento. Eu fiz duas excursões aos Estados Unidos num circuito universitário passando por Los Angeles, Santa Bárbara, Arizona. Em Santa Fé havia até uma frente de MPB. Em Denver eu toquei para 8 mil pessoas, voltamos oito vezes para o bis. Existe um passado de respeito e de reconhecimento com Carmem Miranda e Tom Jobim. Laurindo de Almeida, Naná Vasconcelos e Eumir Deodato contribuíram para essa aproximação. Essas experiências nos Estados Unidos e Japão denotam que a Música Popular é um símbolo de identidade nacional e cultural. No Japão foi criada até escola de samba chamada Cruzeiro do Sul.
Roberto O europeu e americano quando conhecem a música brasileira, gostam. São capazes de consumir. Alguns brasileiros que foram para lá cedo, como o Airto Moreira e Flora Purim, foram por conta própria. Sucesso é uma coisa diferente do que gostar e respeitar. O Tom Jobim é um cara conhecido, você pode parar qualquer um nas ruas de Nova York e perguntar você conhece o Tom Jobim?, eles conhecem. Mas o americano médio não consome essa música, nem Caetano, nem Tom Jobim. Mas é uma música que tem público específico. Também há muito brasileiro que mora nos Estados Unidos e isso deve ser levado em consideração.
E o show antológico do Tom Jobim e João Gilberto nos Estados Unidos não serviu para solidificar a marca MPB nos Estados Unidos?
Roberto Aquele show que aconteceu no Carnigie Hall, em 1962, foi um fiasco, horrível. Foi um equívoco. Eu tenho uma gravação desse show e vi que foi mal ensaiado e produzido. Mas dizer que a Bossa Nova foi lançada nos Estados Unidos a partir disso é conversa fiada. As gravadoras estão se lixando para a música brasileira, no Brasil e lá fora. As gravadoras estão por trás dos artistas. O Ivan Lins é gravado no exterior, não sei dizer se a música dele é boa, ou se é fruto de um intercâmbio entre as gravadoras. Eles querem músicos com gravadoras, descartam os independentes. Quando você leva algum artista brasileiro para gravar lá fora é porque existe algum contrato com gravadora.
Luiz Otávio O que a gente sente é que existe uma representatividade forjada na qualidade de certos trabalhos e que realmente renderam frutos. Inclusive estabilizando as pessoas que fizeram fortunas, como é o caso do Eumir Deodato e Luis Bonfá. Em relação às gravações de artistas brasileiros que vão gravar nos Estados Unidos, seria muito bom se a trupe fosse daqui para lá e fosse financiada pelo capital americano. Mas não, quem paga a conta são as gravadoras daqui, pagando as despesas de lá. E com essa balela da globalização, as portas estão franqueadas. Maurício Tapajós, que passou grande parte da vida dele lutando pelos direitos autorais, me contou que quando cantores que vendem milhões de cópias (Madonna e Michael Jackson) lançam CDs aqui, já está determinada a quantidade de vendas. Se a Madonna tem de vender 3 milhões de cópias, não interessa. A gravadora aqui no Brasil remete para lá o lucro de 3 milhões de cópias. Se ela não vendeu o estipulado, o resto sai do casting nacional. Isso porque o disco não é numerado. Não existe controle de vendas. Os artistas brasileiros que vendem muitos discos pagam a limusine da Madonna.
Giovanni, o que chega até seus ouvidos na Itália da Música Popular Brasileira?
Giovanni Chegam principalmente autores e compositores como Djavan e Caetano Veloso. Na Itália, o Toquinho faz um enorme sucesso há muitos anos, principalmente com o público de maior idade. Eu gosto muito da obra do Djavan, acho um músico de nível internacional. Quando eu cheguei pela primeira vez ao Brasil, descobri algo diferente. Nunca tinha ouvido choro, a música popular verdadeira. Aos oito ou dez anos de idade, minha mãe gostava muito da música de Vinícius de Moraes. Aprendi essa linguagem típica brasileira. Na Europa, no verão, existe a mania de tentar descobrir novas músicas, para fazer sucesso nas discotecas, uma coisa mais turística, um modismo. Tem até músicos italianos fazendo música brasileira.
Com o processo da globalização vocês acreditam que a música brasileira terá mais sucesso no exterior?
Giovanni A globalização não é uma coisa muito boa para a música popular de qualquer país. Globalização significa o poder de uma multinacional de criar um mercado maior com mais dinheiro, com mais controle desse mercado. A música popular é um veículo da música autêntica de um país. Os músicos brasileiros são muitos conceituados, respeitados na Itália. Você fala em samba e todo mundo conhece, você fala de Vinícius de Moraes, de Tom Jobim, 80% dos italianos conhecem, mas isso não repercute. Mas a estima e o respeito pela Música Brasileira está crescendo. Acho um problema a música pop italiana estar repercutindo aqui. Fico com um pouco de vergonha nesse sentido. Laura Pausini canta bem, mas canta um produto de mercado.
Qual o caminho então para penetrar no mercado com mais força?
Luiz Otávio Eu acho que para o artista de música brasileira, do choro, do samba, é preciso procurar outro caminho longe da grande mídia. Novos espaços precisam ser preenchidos, os músicos precisam se mexer de uma maneira mais profissional e incisiva. Isso se consegue através dos festivais de música e pequenos espaços de música acústica. São táticas que o músico precisa procurar, para que ele possa continuar produzindo.
Roberto Esta estratégia tem fundamento. A globalização é inevitável, e começou com as grandes navegações. Culturalmente somos fortes no lado criativo, mas extremamente frágeis para manter a identidade cultural. A questão da internacionalização da cultura pode ser um desastre. Não estamos preparados para dividir o mundo equitativamente, e é evidente que vamos entrar pelo cano.
O que vocês acham do rótulo World Music, criado pelo mercado para inserir a música brasileira. Gilberto Gil levou um Grammy nesta categoria?
Roberto World Music um rótulo usado para tudo que não é música americana, criado pelas multinacionais do disco. MPB não é um gênero, é a música brasileira toda. Não reconheço as divisões da música como a do Grammy Latino para a música brasileira, como se fosse uma divisão científica. Um gênero leva cem anos para se consolidar.
Giovanni Na Itália foi importante conhecer músicas africanas, do leste europeu. Músicas da África Oriental são mais fortes do que a brasileira. São artistas que vendem milhões de CDs. O cantor Peter Gabriel fez um selo musical somente para World Music, dando oportunidade desses artistas serem vendidos, com distribuição forte na Europa e Estados Unidos. Eu acho positivo conhecer músicas no ano 2000 que não conheço ainda, mas não é a cultura de um povo. De repente, pode ser somente o sucesso momentâneo de um artista.Três músicos - Giovanni Luisi, Roberto Gnatalli e Luiz Otávio Braga - falam sobre a imagem da MPB no Brasil e no exterior
Paulo WolfgangGiovanni Luisi: A globalização não é uma coisa muito boa para a música popular de qualquer paísJosoé de CarvalhoRoberto Gnatalli: O europeu e americano quando conhecem a música brasileira, gostamJosoé de Carvalho:Luiz Otávio Braga: Os artistas brasileiros que vendem muitos discos pagam a limusine da Madonna





