Wilmar Klein
Com missa solene celebrada pelo arcebispo dom Albano Cavallin, a Arquidiocese de Londrina despediu-se ontem das relíquias de Santo Agostinho, que, ao longo da semana, estiveram expostas nas matrizes de Jaguapitã, Pitangueiras e Rolândia, situadas na região. A exposição da urna com as relíquias do santo, conforme a Folha da última quarta-feira informou, desde janeiro está percorrendo o Brasil, como parte das comemorações dos cem anos da presença dos religiosos agostinianos em nosso país. É uma boa ocasião para lembrar que Agostinho foi não apenas um dos maiores sábios da Igreja, mas também um dos maiores pensadores de todos os tempos, estendendo a sua contribuição aos mais diversos ramos da Filosofia - da epistemologia à estética. No âmbito desta última, passados mais de 1.500 anos (1), muitas de suas colocações, lidas adequadamente (ou seja, sincrônica, e não diacronicamente), prestam-se, surpreendentemente, ao entendimento da arte do nosso tempo.
No ensaio ‘‘O Prazer Estético e as Experiências Fundamentais da Poiesis, Aisthesis e Katharsis’’ (in ‘‘A Literatura e o Leitor: Textos de Estética da Recepção’’, coordenação e tradução de Luiz Costa Lima, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979), Hans Robert Jauss assim resume a distinção agostiniana entre o uso dos sentidos para o prazer (voluptas) e para a curiosidade (curiositas): ‘‘o primeiro refere-se ao belo, ao harmonioso, ao perfumado, ao gostoso, ao agradável de tocar, em suma, às sensações positivas dos cinco sentidos; o segundo é esclarecido também pelo seu oposto, como pela fascinação por um cadáver mutilado ou ainda pela lagartixa que caça moscas. Para as duas direções da experiência estética, Agostinho traça uma nova linha divisória entre o bom, orientado para Deus, e o mau uso do prazer dos sentidos, voltado para o mundo. Não parece haver dúvida de que a arte do nosso século - notadamente a arte de vanguarda - cedeu aos apelos da curiositas, preferindo-os aos da voluptas (aos quais não raro rejeitou violenta e programaticamente).
Escreve o bispo de Hipona no capítulo 35 do livro X das suas ‘‘Confissões’’ que ‘‘a curiosidade (...) gosta às vezes de experimentar o contrário dessas sensações’’ (de prazer derivado do que usualmente é considerado belo, harmonioso, suave, etc.), ‘‘não para se sujeitar a enfados dolorosos, mas para satisfazer a paixão de tudo examinar e conhecer’’. Quem negará a importância que o século 20 conferiu à ciência e os avanços tecnológicos daí decorrentes, bem como a nova visão de mundo (com inevitáveis reflexos sobre a arte) determinada por ambos?
Para Agostinho, a fealdade resulta de uma alteração da forma, porém não considera o ‘‘feio’’ como oposto do ‘‘belo’’, e sim como uma corrupção, uma perversão da beleza. Desse modo, relativiza os conceitos de beleza e feiúra. Esta é tão-somente um grau inferior da beleza. Relativiza também a noção clássica que associa o belo ao bem e o feio ao mal. Ao contrário do marquês de Sade, para quem o mal era a única realidade, o ex-maniqueísta Agostinho argumentava que, sendo o mundo um produto da sabedoria e da bondade de Deus, só poderia existir o bem. O mal que enxergamos no mundo resultaria da nossa visão parcial das coisas, sendo, portanto, destituído de substancialidade. Ressalvou, no entanto, que ‘‘o modo, a forma e a ordem são qualificados de funestos quando são inferiores ao que deveriam ser, ou se não convêm às coisas como deveriam convir. Assim, pois, se fala de uma forma perversa, seja por comparação com uma forma de maior beleza, ou por não convir a uma determinada situação’’ (2).
Nunca será demasiado lembrar quanto o gosto pela incongruência, pela ‘‘forma perversa’’, foi decisivo para a constituição de boa parte da arte contemporânea (no campo das artes plásticas, bastaria recordar os procedimentos dadaístas e surrealistas e, principalmente, o exemplo de Duchamp). Ajunte-se a isso a dificuldade (ou a impossibilidade) de conciliar as noções de um mundo bem ordenado, lógico, determinista, legadas pela ciência tradicional, e os novos parâmetros fornecidos por disciplinas como a física de partículas e a ciência do caos - parâmetros que, forçosamente, vão modificando a nossa mundivisão, com inevitáveis consequências sobre a nossa visão da arte. Acrescente-se, ainda, a crise de valores decorrente da própria secularização, cada vez mais acentuada, do nosso tempo - e, portanto, a diminuição do peso dos valores outorgados pela religião, ou mesmo a rejeição deles -, e entenderemos um pouco melhor por que a fruitio (fruição) estética tão frequentemente escolhe para o seu deleite, neste final de milênio, objetos que ao bom Agostinho pareceriam perversões estéticas.
Mas o serão ainda (e esta indagação é legítima) quando a maioria das pessoas acostumar-se a elas, e não mais torcer o nariz ou sentir-se desorientada quando as encontrar expostas nos museus?
(1) Agostinho, nascido em 354, em Tagaste, na província romana da Numídia, na África, morreu em Hipona - atual Annaba ou Bone, na Argélia -, em 430.
(2) Karol Svoboda, ‘‘La Estética de San Agustín y sus Fuentes’’, Madri, Librería Editorial Augustinus, 1958.

mockup