Deito com uma das mais antigas lembranças da vida, minha mãe, sentada na beirada da cama, recitando a quadra que disse ter ouvido de sua mãe: “Com Deus me deito / com Deus me levanto / com a graça de Deus / e do Espírito Santo”.

De manhã levanto com outra quadra saltando da memória: “Eu vi minha mãe rezando / aos pés da Virgem Maria: / era uma santa escutando / o que outra santa dizia”. Foi escrita pelo médico pernambucano Barreto Coutinho, que viveu em Curitiba, como a demonstrar que somos sujeitos às quadras da vida, suas épocas e mudanças.

Então outra quadrinha vem saltitando lá da meninice: “Sol com chuva / casamento de viúva / Chuva com sol / casamento de espanhol”. É coisa folclórica e des-dis, desconhecida de origem e distante no tempo, até por isso mesmo tão encantadora. E a viúva e o espanhol decerto estão aí sem qualquer lógica, apenas para rimar, mas as duas rimas sugerem o segredo dos casamentos, a reciprocidade, pois ora é sol com chuva, ora é chuva com sol, portanto uma quadrinha aparentemente boba porém profundamente sábia.

Outra quadra emerge da memória já do tempo escolar: “Minha terra tem palmeiras / onde canta o sabiá (...) / não permita Deus que eu morra / sem que volte para lá”. São versos da Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, o estupendo poeta que, indo tratar de tuberculose na Europa, não se curou e, voltando ao Brasil muito doente, o navio naufragou e ele foi esquecido ou deixado no seu camarote, quando já se avistava praia do seu Maranhão natal...

Seus versos inspiraram a Guilherme de Almeida o Hino do Expedicionário, escrito para os pracinhas brasileiros que foram lutar na Itália na Segunda Guerra: “Por mais terras que eu percorra / não permita Deus que eu morra / sem que volte para lá / sem que leve por divisa / este V que simboliza / a vitória que virá” (o V ficava na manga esquerda do uniforme dos pracinhas).

Antes, o mesmo paulistano Guilherme de Almeida, autor da Bandeira de Londrina, já tinha escrito quadra famosa do Hino Constitucionalista, para a Revolução de 1932, visando a bandeira paulista: “Bandeira da minha terra / bandeira das treze listras: / são treze lanças de guerra / cercando o chão dos paulistas”. E há que se lembrar que, mesmo lutando apenas três meses e sendo derrotados, os paulistas de 32 nos legaram a democracia depois politicamente vitoriosa.

Mas as quadras da vida se sucedem e meu interesse pelas guerras, como chaves da História como dizia Leminski, simplesmente passou, lembrando a quadra de Drummond: “O primeiro amor passou. / O segundo amor passou. / O terceiro amor passou. / Mas o coração continua.”

Às vezes penso que não mando na escrita, ela é que manda em mim – inclusive que encerre esta crônica sobre quadras assim: “Nada como matar tempo / nem nem saber até quando / sabendo todo o tempo / que o tempo está te matando”.

Ou melhor assim: “Se perdido vou andar / escuto que em toda quadra / sempre um cão amigo ladra / que só em mim vou me achar”. Ou: “O sol em todo poente / não dá adeus – porque / dá até-logo por ser / já anúncio do nascente”.

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