Como não perder seu tempo
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 24 de abril de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Um sem-número de filmes partiu da premissa de que um dos personagens finge amar o outro a fim de ganhar uma aposta, e afinal se rende à ''armadilha do destino''. O resultado, via de regra, é sempre desastroso para o cinema. No caso de ''Como Perder um Homem em 10 Dias'' , a partir de hoje em lançamento nacional (veja a programação de cinema na página 2), os dois estão apostando juntos mas em vias opostas. O resultado é não menos penoso.
Baseado em livro homônimo de auto-ajuda, assinado por Michelle Alexander e Jaeannie Long, ''How to Lose a Guy in Ten Days'' é sobre Annie Anderson (Kate Hudson), jornalista a serviço da revista para mulheres ''Composure'', uma espécie de clone de ''Cosmopolitan''. Ela até que tem pretensões mais sérias quanto à profissão, como, por exemplo, escrever sobre o Tajikistão. Mas inspirado em como uma outra jornalista (Kathryn Hahn) deixa espaçar os namorados, sua oportunista patroa-editora (Bebe Neuwirth) aparece com o título-aposta para a próxima coluna de Annie, exatamente o mesmo do filme.
Saindo a campo em busca de um candidato para ser conquistado e ''perdido'' naquele espaço de tempo, ela encontra o publicitário Benjamin Berry (Matthew McConaughey), afinal o objeto de seu experimento. Mas por sua vez ele tem a agenda secreta, também com uma aposta: ele ganha a conta publicitária de uma grande joalheria caso consiga fazer uma mulher se apaixonar por ele em dez dias a aposta é com o patrão. Assim, os primeiros dias juntos são maravilhosos, e os últimos do prazo fatal tendem a ser um inferno, porque ele precisa conquistá-la a qualquer custo e ela precisa dispensá-lo idem.
O que começa como uma imitação do contemporâneo ''Sexo e a Cidade'', mas sem o sexo, se transforma em uma apalermada imitação daquelas comédias sobre ''guerra dos sexos'', estilo anos 50, linha ''Confidências à Meia-Noite'', ela fazendo gênero irritadiço à Doris Day, ele incorporando o espírito de Rock Hudson. Extensas porções do filme parecem um disco reproduzido na velocidade errada: o tempo em que os diálogos acontecem não batem com o tempo em que foram escritos, e a direção de Donald Petrie, preguiçosa ou inepta, é sem brio o suficiente para desanimar quem esperava (há ainda quem espera melhor performance dessas comediotas? ) coisa melhor.
Mas há ainda pior pedaço:o final, primeiro na festa e depois na estrada. Uma resolução tão piegas quanto simplória. Uma superestimada, inadequada Kate Hudson bate de frente com um Matthew McConaughey menos vulnerável mas ainda assim triturado por um roteiro perverso.


