Como íntimos amigos
Cantor da noite há cerca de oito anos, Marcelo Camargo tem muita história para contar. Algumas bem engraçadas são quando ele recebe bilhetinhos com nomes de músicas um tanto quanto... curiosas?! É comum abrir o pedido e tentar decifrar o que o fã está querendo. Toca Boimia, referindo-se à tradicional A Volta do Boêmio, que fez tanto sucesso na voz do Nelson Gonçalves. Boa também é aquela canção de Paulo Vanzolini, Honda... Ou então Vida Sigana. Brincadeira ou não, o fato é que estes pedidos chegam com frequência às mãos do músico.
Situações estranhas também fazem parte das noites de Marcelo Camargo. Certa vez, estava tocando no palco e um cara subiu e ficou atrás de mim. Sem falar nada, esperando. Eu não sabia o que ele estava fazendo lá e não dava para olhar pra trás. Ele queria pedir uma música, conta. Os que insistem em fazer pedidos podem causar um certo embaraço no palco. Como aquele cara que chega no seu ouvido pra pedir a música. Ou na sua frente, para entregar o papelzinho e esperar que você pegue. Só que ele não se toca que o músico está com as duas mãos ocupadas no violão. O jeito é esperar um tempo na música para avisar.
Tem ainda os que chegam ao bar e logo fazem a lista do que quer ouvir na noite. Dez, quinze músicas: todas clichês. E às vezes ainda esquece uma e no final pede para acrescentar.
Constrangedora, mesmo, foi a vez que Marcelo Camargo estava tocando em um bar para um único casal. Eles sentados na minha frente e brigando o tempo todo! E eu tocando. O que podia fazer? Olhava para o dono do bar e ele ria. E o casal brigando. Para provocar, eu tocava aquelas músicas de dor de cotovelo. O pior é que eles paravam de brigar, cantavam um pouco e voltavam a quebrar o pau.
Cristina Tonin e Eduardo Brancalion relatam que em suas apresentações também não faltam pessoas pedindo músicas e cantando em coro. Acho que é um ciclo. Entra ano, sai ano, lá estão as mesmas músicas. E todas as noites, sem exceção, as pessoas pedem os clássicos. A cantora lembra de muitas situações típicas dos barzinhos. Uma delas é um fã mais jovem achar que a música cantada foi lançada há pouco tempo. Um exemplo clássico é Sozinho, sucesso atual na voz de Caetano Veloso, mas que já foi gravada em 1997 por Sandra de Sá e depois por Tim Maia. Outro caso que bagunça a cabeça da molecada é aquela música nova da Daniela Mercury, se referindo à antiga Como Vai Você, composta por Antonio Marcos nos anos 70.
Coisa engraçada, aponta Cristina, é quando o cara se aproxima do músico para fazer discurso. Ele conta sua vida inteira, fala que terminou com a namorada e precisa de uma música para fazer ela voltar. A gente acaba funcionando de cupido. Eduardo Brancalion lembra também dos casos de fãs que chegam ao músico, dão um abraço e vão embora. Simplesmente. Como se estivesse se despedindo de um velho conhecido. Gente que canta mais alto que o próprio cantor não é difícil. Principalmente quando bebe um pouco demais. Aí perde a noção do tom e a gente acaba se perdendo também, conta Cristina.
Marta e Márcia Santos têm tantas histórias para contar, que muitas se resumem em situações do tipo gente que pede música e chora na mesa. Tem os casos de ciúme, quando alguém oferece uma música e outra pessoa não gosta. Tem as sessões de boemia, depois das duas da madrugada, quando o que vale é a dor-de-cotovelo. (J.S.)





