Como fugir da folia
Douglas MayerO verdadeiro
Carnaval acontece
em Brasília, onde
tudo acaba em pizza
Há quem resolva
acampar, fazer
consertos ou reformas
que nunca dão certoOs tamborins se aquecem para o baticum do Carnaval, prenunciando as festividades reinadas por Momo. Enquanto os aquecimentos e batucadas se proliferam, muita gente se ocupa em aproveitar o feriado sem cair no samba. Para quem não é fã da gandaia da festa folclórica mais popular do Brasil sobram poucas opções: o Carnaval está presente na TV, rádio, jornais e, sem um pouco de criatividade, fica difícil driblar os folguedos que invadem os salões. Mesmo assim muita gente tenta. Algumas até conseguem.
Se o negócio é fugir da batucada sem perder a festa, há quem defenda o churrasco como opção. A folia pode ser parecida, afinal, churrasco é muito mais do que assar carne com brasa. Rende jogos de truco, bate-papos, piadas, rodas de violão e até dança, dependendo do pique. E o melhor é que o público é selecionado. Beber e comer entre amigos é sempre mais divertido.
O Carnaval tem seu lado bom, mas quem trabalha com comunicação vive em ambiente muito barulhento. Aproveitar o feriado em uma fazenda, uma chácara, com um churrasquinho, tomar café acompanhado com pão caseiro é bom para recarregar a bateria. É melhor do que praia. A dica, então, é trocar o Carnaval por uma boa fazenda, comenta José Makiolke, radialista e apresentador de programa de auditório em Londrina.
O churrasco também é alternativa para quem prefere o rock ao samba: Na sexta dá para assar uma carne com os amigos, no sábado você ouve o programa Máquina Quente na 104,1 e no domingo dá uma volta no Lago Igapó para ver os bêbados que sobreviveram. Segunda-feira é dia de videoclipe e desenhos, é bom hidratar o corpo e pensar na vida porque vem aí um ano de pressão, argumenta Paulão RocknRoll, radialista em Londrina.
A depressão da quarta-feira de cinzas deve ser enfrentada sem tempo quente, segundo Paulão: A melhor coisa para a depressão é juntar com a tristeza para que as duas se consumam juntas. O negócio é ficar sozinho e preparar o corpo e o espírito porque já estão chegando as águas de março e vai rolar muita coisa neste ano.
Para o escritor Maurício Arruda Mendonça a festa deve ser vista sob outra ótica: Não é legal encarar o Carnaval apenas como gandaia, mas como um processo de entendimento e compreensão da realidade, como uma inversão da história do Brasil. Temos que entender o Carnaval e perceber que o verdadeiro acontece em Brasília, onde tudo acaba em pizza.
Há quem procure pesque-pague, dispute partidas intermináveis de buraco ou desfalque a locadora alugando pilhas de filmes e CDs. Os internautas aproveitam as linhas livres para entrar nos sites mais inacessíveis. Tem gente que, exausta de trabalho, embarca numa sonoterapia espontânea dormindo os quatro dias.
Os mais ativos podem aproveitar para limpar armários e jogar fora aquele artigo de 1982 que nunca foi lido - às vezes a situação piora quando se encontra durante a faxina uma reportagem de 1978 que permanece intocada. Tem aqueles que visitam os parentes idosos para falar dos mais novos, e muita gente resolve ler até cansar a vista, comendo bolacha no sofá - móvel disputado durante todo o feriado.
Os maníacos por TV celebram a existência do cabo e das emissoras que optam por programações alternativas. Há quem resolva acampar, fazer consertos ou reformas que nunca dão certo, montar quebra-cabeças, kits de miniaturas, fazer aquela revisão que o carro precisa ou mergulhar num retiro espiritual.
O Carnaval é uma festa pagã dos tempos remotos. É a festa dos sentidos da natureza, dos instintos, do lado irracional do homem. Aqueles que não gostam deste tipo de postura devem procurar outra forma de diversão, pois nesses dias as correntes pagãs tomam conta do mundo e as pessoas dão vazão ao seu lado animal. O próprio Rei Momo é uma entidade que existe no plano espiritual, e os mais sensitivos acabam perdendo os parâmetros, correndo o risco de se prejudicar, aconselha a astróloga Yara Ramos.
Se mesmo tantas dicas não funcionarem, a solução é desenterrar a fantasia de pirata e ir para o baile, afinal não adianta forçar o exílio se, mesmo a contragosto, os reflexos exigirem pelo menos uma volta no salão.





