Hoje é dia do cinema brasileiro. Data para relembrarmos e repensarmos o pouco mais de cem anos de nossa cinematografia. Empresas cinematográficas em todo o País estão promovendo descontos especiais em vista da data comemorativa (leia box ao lado).
Em Londrina, a Biblioteca Municipal inicia hoje, a partir das 18h30, o projeto Cinema Falado. Serão exibidos filmes brasileiros todas as segundas, com entrada franca. Após as exibições, debates sobre as relações entre os filmes e a nossa realidade. A atração de hoje é o primeiro longa do paulista Luiz Sérgio Person (1936-1976), ''São Paulo S.A.'' (1965, 107 minutos).
Person tinha acabado de voltar da Itália (estudou cinema por lá) e fez uma das maiores obras-primas do cinema brasileiro. O filme mostra a trajetória de Carlos (Walmor Chagas), um jovem em ascensão na São Paulo do fim dos anos 50. A cidade não pára - indústrias, indústrias, indústrias... Carlos só pensa em dinheiro e em prazeres carnais. Tem duas namoradas; as belíssimas Luciana (Eva Wilma) e Ana (Darlene Glória). Acometido pela razão, Carlos passa a redimensionar todos os seus valores. Sai de São Paulo e decide recomeçar. O único problema é que ele não sabia que isso era impossível... Ao menos na sociedade desfigurada que lhe retirou a alma e a vontade própria.
Além das homenagens, algumas perguntas devem ser novamente feitas após um século de imagens. O brasileiro tem uma identidade consolidada pelo cinema? Existe uma indústria cinematográfica no País? E a qualidade de nossa cinematografia, está entre as melhores do mundo?
Em 104 anos de cinematografia (o primeiro registro de imagens em película no Brasil ocorreu em novembro de 1897, por Cunha Salles), nossos cineastas criaram figuras que perduram no imaginário brasileiro. Quem não se lembra de ''Dona Flor e Seus Dois Maridos'', de Sônia Braga embriagada de prazer em ''A Dama do Lotação'', do caipira interpretado por Amácio Mazzaropi, de Grande Otelo como Macunaíma, de Corisco beijando uma camponesa ao som de Villa-Lobos (''Deus e o Diabo na Terra do Sol'')?
São figuras imortalizadas em películas, mas... será que são realmente populares? Das dez maiores bilheterias da história do País, apenas duas são de produções nacionais - ''Dona Flor e Seus Dois Maridos'', de Bruno Barreto (10,735 milhões de espectadores) e ''A Dama do Lotação'', de Neville de Almeida, com público de 6,509 milhões (Fonte: Filme B, Embrafilme, Concine, distribuidores e produtores). A maior bilheteria de todos os tempos no Brasil fica para ''Titanic'', com mais de 16 milhões de espectadores só nos cinemas. Será então que podemos considerar popular essas figuras trazidas pela sétima arte nacional? Logicamente o filme atinge um público maior posteriormente, pois vai para as locadoras, TV paga e TV aberta. Mas mesmo assim, os brasilerios que assistiram a ''Dona Flor'' há 25 anos configuravam 10% de nossa população. Quantos são atraídos hoje pelos símbolos de nossa teledramaturgia e pelo cinema americano?
Se a questão sobre a imagem do brasileiro é complexa, a relativa à nossa indústria é bem mais simples. Não, não há uma indústria cinematográfica no Brasil. O que há de semelhante, em termos de audiovisual, é a produção de telenovelas. Se após os anos 90 os aspectos técnicos de nossos filmes melhoraram (principalmente a fotografia e o som, que passou a ser direto, sem dublagens), a questão financeira ainda impede a consolidação de uma produção com bases consolidadas no País. Uma câmera tradicional da Panavision, que tem uma diária no Brasil de aproximadamente R$ 2,5 mil, pode ser encontrada nos EUA com diária de 450 dólares. Há também poucos laboratórios para revelar, montar e kinescopar (passar de outro suporte para a película) as produções. Isso torna tudo muito caro, sem contar as despesas com marketing e distribuição, o que no Brasil, acabam não existindo, já que o produtor gasta quase tudo na realização do filme. Daniel Filho, diretor do recente ''A Partilha'', disse no programa Roda Viva em abril desse ano que não conhecia um filme brasileiro que desse lucro para o investidor. Nem ''O Auto da Compadecida'', grande bilheteria do ano passado, rendeu mais do que custou. Existe uma indústria no mundo que se sustente sem dar lucros?
E finalmente, a estética do cinema nacional. Sim, ela existe, aliás, existem várias. Desde os vôos de vanguarda de Mario Peixoto em ''Limite'', no início dos anos 30, até o recente ''Lavoura Arcaica'', de Luiz Fernando Carvalho, muitas obras se aprofundaram em nossa alma e em nossas contradições. Houve Humberto Mauro, cineasta intuitivo, que de sua Cataguases lançou ao mundo uma visão tipicamente abrasileirada - alegre, imprevista e saborosa. Houve Glauber Rocha e a geração do cinema novo, que a partir da estética da fome, mostraram um Brasil como ele era - imperfeito, rústico e paradoxal. Muita fé e muita paixão. Muita dor e muita alegria. Muita repressão e liberdade desregrada. Eram filmes de jovens que queriam o mundo e nos deram o Brasil. Homens de cinema, não produtores, como geralmente ocorre nos EUA. Uma lista selecta, mas rica, pode ser apresentada. Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Walter Lima Jr., Cacá Diegues, Arnaldo Jabor, Paulo César Saraceni e Joaquim Pedro de Andrade. E houve também Person, José Mojica Marins (Zé do Caixão) e Walter Hugo Khouri. Estéticas diversas do cinema novo, mas não menos geniais.
Após o cinema novo surgiu uma linha difusa, com estetas diferenciados, marcados por um fazer cinema artesanal. Leia-se Carlos Reichenbach, Rogério Sganzerla e Julio Bressane. E nos anos 90, Walter Salles, Tata Amaral e a nova geração.
Produzimos hoje cerca de 20 longas e 80 curtas por ano. Uma média bem abaixo da norte-americana (400 filmes por ano) e da indiana (cerca de mil produções anuais). Abaixo também de nosso auge dos anos 70, em que a Embrafilme (empresa mista, com capital na maior parte do Estado) bancava cerca de 150 longas por ano. Tempos de produção, mas com qualidade discutível.
Enfim, o cinema brasileiro caminha torto, sem público, sem indústria, mas com artistas talentosos, que buscam na tela um espelho para o brasileiro comum, que de tão sofrido, não se lembra mais de se preocupar com a sua alma e seus valores. É um cinema sem uma estética unificada, um misto de influências de todos as cinematografias, mas com uma genialidade reconhecida em todo o mundo. Em 1995, uma selecta lista em Berlim incluiu ''Ganga Bruta'', de Humberto Mauro, como uma das cem maiores películas do século. Glauber foi saudado como gênio mais de uma vez em Cannes. E Anselmo Duarte nos trouxe a Palma de Ouro em 1962 por ''O Pagador de Promessas''. Se há dúvidas sobre como solucionar os problemas de nosso cinema, um conselho é quase um consenso - dê uma câmera aos nossos cineastas e eles saberão o que fazer. Sem indústria, sem público e sem grana. Mas com idéias... idéias que não acabam.

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