Comidas que repugnam
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quarta-feira, 01 de novembro de 2000
Maria de Los Angeles 
Uma minúscula parcela dos adultos, entre 1% e 2% tem alergias alimentares verdadeiras (e de fato perigosas). Todas as culturas humanas consideram pêlo, papel e cabelo impróprios como alimento. Todo o resto é aprendido... (O Homem que Comeu de Tudo Jeffrey Steingarten Cia das Letras ).
Somos todos onívoros, ou seja, comemos de tudo, ou quase tudo. Mesmo assim, consegui uma lista bastante extensa de coisas que as pessoas consideram repugnantes: buchada, rabada, coisas gosmentas em geral, ou combinações de pizza com cogumelos, sardinha salgada com goiabada, camarões míudos, bichos em geral do mar e do mangue, miúdos de qualquer animal, o sarapatel do norte do país...
Enfim, a lista é tão extensa que, se for para generalizar, chega-se à conclusão que o homem é um bicho tão caprichoso que tem que passar fome para aprender a comer sem tanta frescura. No entanto, alguns pratos muito nojentos são considerados iguarias por nossa civilização, como caviar e patê-de-foie-gras, feito com míudos de porco e aves. Na Espanha a deliciosa morcilha é de sangue de porco, e me disseram que (arrepiem-se!) os índios comem caranguejeiras, sem dúvida muito menos poluídas que nossos siris dos manguezais.
A carne de coelho não pegou no Brasil por uma espécie de fobia. Realmemte, dá pena comer bicho tão bonito, ainda mais para os amantes dos gatos. No entanto, é carne muito mais limpa que a de frango, por exemplo, e quando é de caça, saborosíssima e especial se bem preparada.
Os romanos faziam um molho que parecia o de soja, japonês, e nada mais era que o chorume das vísceras de vários peixes, salgadas e deixadas ao sol. É o famoso molho Garum, achado recentemente em livro de receitas da época dos césares. Alerto os mais escrupulosos que muitos dos alimentos da nossa mesa são putrefactos, já comido por vermes, bactérias, fungos, bacilos, que se encarregaram de digeri-los para nós. Não precisamos ir longe: iogurtes em geral, missô, natô (feijão de soja em conserva), chucrute, frozens e queijos (não é à toa que muitos literalmente fedem).
Então, está provado: precisamos de coisas fermentadas, putrefactas, que nos conservem vivos, e se possível, sentindo o prazer de comer isso. Normalmente são alimentos concentrados e, por mais repulsa que sintamos, sempre vale a pena experimentar poções, não importa a nacionalidade. Meu ecletismo e curiosidade culinária já me fez experimentar as coisas mais estranhas, mas, desde que esteja limpo, e isso se percebe, devemos experimentar, nem que for uma lambida. Nunca me furto a uma experiência gustativa. Como todos temos o médico e o monstro em algum grau dentro de nós, aí vai, tendo como personagem a versátil berinjela, minha receita nojenta predileta:
Berinjelas à la Dalí
(por serem escorregadias como o relógio de um quadro de Dalí)
Pegue 2 berinjelas lavadas com casca e cabo (receita para 4 porções).
Uma de cada vez, ou várias, atravesse-as com garfo ou espeto. Assadas em brasas elas ficam com melhor sabor, porém dá certo na chama do fogão.
Sem medo, coloque a berinjela direto no fogo baixo, neste caso, e vá virando até a casca virar carvão. Espere esfriar e com uma faca, retire o que puder da casca. Você vai ter então um grande bago escorregadio, como o de jaca, mas sem o caroço, e sendo o miolo da berinjela. Tempere então, basicamente, com azeite, sal, orégano, alguma pimenta. Dependendo da imaginação e disposição do chef, você pode fazer dessa gosma deliciosa um prato refrescante, saudável e leve, de origem beduína. Basta acrescentar cheiro verde, louro, manjericão, azeitonas, ervilhas, pimentões assados, queijos, trufas, molhos em geral, aliche, etc, etc...
Crianças não ensinadas a comer de tudo, ou o que houver, vão odiar e se repugnar. Mesmo odiando as bactérias congeladas que as vezes são os sorvetes. Coma tua receita repugnante com o melhor pão ázimo e o queijo mais repelente que puder encontrar. Uma delícia!
Para terminar e refletir, mais um trecho do interessante O homem que Comeu de Tudo: Quanto mais pensei sobre as fobias alimentares, mais me convenci de que as pessoas que costumam evitar comidas comprovadamente deliciosas são pelo menos tão perturbadas quanto as que evitam o sexo ou não têm prazer nenhum com ele...
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