Cometa traz alegria
No início, a expressão dos rostos é um misto de curiosidade e timidez. Aos poucos, conforme a conversa toma rumo e eles vão sendo convidados a falar, demonstram estar mais à vontade. Mas é só depois de entrarem em cena que a descontração acontece de fato. Para estas crianças e jovens que moram no Distrito do Espírito Santo, em Londrina, e participam do Projeto Cometa Alegria, o teatro tem tido este poder de transformação. Um poder que vem aos poucos imprimindo cores alegres a vidas antes em preto e branco.
Resultado da dedicação obstinada da psicóloga e atriz Maria Amélia Antonio Melo, o projeto nasceu em agosto de 96, batizado de Teatro na Zona Rural. Pouco mais de dois anos depois e muitas dificuldades - como a total falta de patrocínio -, apenas uma das duas turmas permaneceu e o trabalho ganhou novo nome. Sem pressa, o Cometa Alegria vai caminhando e mostrando, como lembra a professora Maria Amélia, que é possível fazer um trabalho digno. Prova disso é a pré-estréia da peça De Rabo a Cabo, marcada para hoje à noite, no barracão da Associação de Moradores do distrito.
É tudo muito simples. Cenário e figurino trazem materiais reciclados, e na maioria dos casos, o espetáculo é ensaiado de pés no chão. A criatividade surge nos mínimos detalhes, como no painel pintado a partir de idéias das próprias crianças pelo artista plástico Danilo Villa. Ou nas roupas criadas a partir de reformas por outra colaboradora, a costureira Roseli Pereira.
Ainda falta ao grupo uma postura cênica. Mas este ano nós já conseguimos apoios muito importantes, e eu acredito que com esta peça a gente vai crescer muito artisticamente, observa Maria Amélia, que espera a resposta da Secretaria de Cultura do município sobre projeto que pretende trazer oficinas e expandir o trabalho também para as comunidades vizinhas.
Por enquanto apenas 20 integrantes, entre 4 e 33 anos, fazem parte deste Cometa. Todos, com exceção de Milza Poltronieri (ver box), estudam. Alguns ainda assumem serviços temporários na lavoura, deixando, às vezes, de participar dos ensaios. Muitos já sonham com o sucesso nos palcos e telas de cinema, mas já sabem que para isso há muito trabalho pela frente.
Integrante do Projeto Plantão Sorriso (grupo de teatro que realiza trabalho de humanização hospitalar no Hospital Universitário), Maria Amélia Melo começou a fazer teatro em 87, com o grupo Bombom. Depois de alguns projetos com o também ator Adriano Garib, ela morou por dois anos em São Paulo, onde fez curso de teatro libertário com o terapeuta Roberto Freire. Antes de ir para a capital paulista, porém, Amélia havia morado em uma propriedade rural no Distrito do Espírito Santo, quando percebeu que a comunidade não contava com nenhum projeto na área da cultura.
De volta a Londrina, arregaçou as mangas e colocou em prática o velho sonho. Trabalhando muitas vezes com recursos próprios, a atriz é motivada pelo fato de estar resgatando um movimento de expressão cultural próprio destas pessoas. E além da cultura, os participantes do projeto também ganham saúde. Através de parceria com o dentista Aldo Pedalino, Maria Amélia os traz semanalmente para tratamento e prevenção de problemas dentários.
A peça que acaba de montar com o grupo foi escrita por Silmara Fernandes e conta a história de três crianças que, ao voltar da escola, percebem que a mãe sumiu. Eles resolvem procurá-la e vão parar em lugares como o supermercado, praia, parques, teatro, trânsito, rodoviária e até no País das Maravilhas. Muitas aventuras depois, voltam para casa e descobrem que a mãe havia sido engolida pelo monstro SBT e estava presa na TV. Como fundo de todo este agito, uma trilha sonora que inclui Titãs, Mutantes, Harte 10, Kraft Werk, The Cure e Big Daddy.Projeto Cometa,
desenvolvido
sem verbas
oficiais no
Distrito do
Espírito Santo,
estréia hoje
De Rabo a Cabo
Dorico da SilvaDe Rabo a Cabo foi feito com muita simplicidade. A criatividade surge, porém, nos mínimos detalhesSilvana Leão





