COMEMORAÇÃO - Receitas para alimentar o amor
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de junho de 2006
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Existe uma relação intrínseca entre a comida e o amor. A ciência pode até não admitir, mas alguns elementos da gastronomia, se não são afrodisíacos, convidam para os relacionamentos amorosos, alimentam o seu prelúdio e até o seu fim. O cinema e a literatura têm exemplos abundantes desse casamento entre o amor e os alimentos. Um passeio pela locadoram pode revelar clássicos como o mexicano ''Como Água Para Chocolate'' (1992) e ''Chocolate'' (2000), com o astro Johnny Depp e a atriz Juliette Binoche no elenco, para citar alguns filmes com histórias em que as refeições podem mudar vidas e transformar amores. Na literatura, um lançamento recente faz uma relação bem pontual entre esses dois ingredientes.
''Devore-me - Amor Sexo e a Arte de Comer'', da escritora inglesa Alexandra Antonioni traz receitas indicadas para o começo, meio e fim de um relacionamento. A obra é dividida em capítulos como ''Atração'', ''Primeiros encontros'', ''Ficar'', ''Apaixonar-se'' até ''O fim está próximo''' e ''Raios e trovões'', quando as brigas são mais comuns que as trocas de carícias. Mais do que receitas, o livro traz dicas saborosas para o candidato deliciar-se com um novo amor ou resignar-se sob os cobertores, dessa vez sozinho, quando a paixão acaba. Mas tem uma característica que o leitor brasileiro deve levar em conta. A diferença cultural é significativa nesse caso e a menos que o leitor esteja acostumado, vai estranhar muito a indicação dos cafés da manhã regados a muito ovo mexido, bacon e até linguiça.
Um dos cardápios, por exemplo, ''O brunch perfeito para dois'' , dá a dica para uma tarde de domingo, a primeira refeição do dia quando se teve uma noite divertida, uma madrugada romântica e o sono durou toda a manhã de domingo. Para a autora, nada melhor do que começar um dia assim com um Bloody Mary. Isso mesmo, ela indica a bebida à base de vodka e suco de tomate para preparar para o amado e tomar enquanto se faz os ovos mexidos, que podem ser servidos com sal e pimenta do reino sobre fatias de pão integral com manteiga. A dica número dois são fatias de bacon frito, tomates, queijo e alface dentro de um pão ciabatta, com a mesma bebida como acompanhamento.
Há quem ache a sugestão pesada demais, mas nunca se sabe o que casais apaixonados são capazes de comer depois de uma saborosa noite de amor. Quando as coisas não vão muito bem na relação, a autora não se faz de rogada. Indica alimentar a raiva mesmo, para digeri-la bem e quem sabe, esquecê-la. Nesse caso carnes estão entre os ingredientes principais. ''Sei exatamente o que quero comer em ocasiões desse tipo. Quero algo em que possa realmente meter os dentes, algo que faça meus maxilares rangerem, um prato que é lixo em todos os pontos do planeta, mas que se for bem-feito, é absolutamente divino: o humilde hambúrguer''.
Ótimo para quem não está preocupado com a saúde, com o excesso de peso ou com algum requinte. Mas numa situação de rompimento, muito pouco desses ingredientes importam, não? Para a chef Solange Schneider, independente da situação do relacionamento, o que vai contar não vai ser o alimento em si, mas sim o clima e a situação relacionada a ele. ''O que faz diferença é como você vai preparar a comida, o que você faz enquanto prepara e como você monta o prato e o ambiente para saboreá-lo'', revela. Gaúcha, filha de italianos, Solange aprendeu desde cedo que a comida pode unir as pessoas, não só namorados, mas família e amigos. ''A mesa é muito importante. Lembro até hoje dos meus almoços em família, com todos reunidos. Tenho certeza de que os alimentos têm muito a ver com os sentimentos'', revela.
Formada em administração de empresas, ela decidiu-se pelo ramo da culinária há 14 anos, quando mudou-se para Curitiba. Chegou a ser proprietária, durante nove anos, de um dos restaurantes mais simpáticos da Capital, onde todos os anos preparava um cardápio especial para o Dia dos Namorados. Mas há dois anos, optou por especializar-se em um ramo até então pouco explorado: preparar cardápio para eventos personalizados. ''Cozinhar tem muito a ver com o contexto do evento e com o espírito da festa. Se é um casamento, um encontro de amigos, um evento profissional, o cardápio muda'', conta.
Para o Dia dos Namorados, ela indica uma receita especial, preparada em formato de coração com uma carne para lá de especial (o carneiro), além de especiarias que podem despertar a libido (veja texto nesta página). Mas ela lembra: nada disso pode ser suficiente, se o ambiente não for preparado adequadamente. ''Velas, uma boa música e uma ambientação bonita da mesa são fundamentais'', ensina. Com todos esses ingredientes no preparo, até um simples macarrão na manteiga, conforme salienta Solange, pode ser um prato inesquecível.
Macarrão aliás, é o prato predileto do jovem casal Karinny Tomazi, 16 e Alan Martins, 17. Namorando há um ano e dois meses, eles preferem comer fora de casa, mas quando podem escolher não titubeiam a escola do cardápio: ''macarrão com molho vermelho e sem cebola'', dizem. Para o casal de estudantes João Paulo Cavalli e Laryce Galvão, ambos de 19 anos, a comida tem um sabor especial. Foi através dela que João conquistou o coração da moça. ''Ele me disse que ia fazer um jantar, mas não disse o cardápio. Quando cheguei na casa dele, ele fez um bife a parmeggiana delicioso'', conta Laryce.
O prato é a especialidade de João Paulo, que há dois anos mora sozinho e, poranto, precisou aprender a cozinhar. ''O bife à parmeggiana é a minha especialidade. Com o prato, conquistei até o meu sogro'', brinca. E alguém dúvida que um amor, e até um amigo, possa ser conquistado pelo estômago?


