Curitiba - Pouca gente sabe que existe uma data especial reservada a ele. Há quem argumente que todo dia é dia de homenageá-lo, senti-lo, comemorá-lo. Mas para quem precisa de um motivo especial, o dia é hoje. Sim, homens e mulheres ávidos pelo prazer, hoje é o Dia Mundial do Orgasmo. A data insólita surgiu na Inglaterra há quatro ou cinco anos (alguns ''historiadores'' divergem quanto ao ano correto) numa promoção exclusiva dos sex-shops ingleses, mas foi se espalhando por diversos segmentos e países que não demoraram a explorar a data comercialmente. No Brasil, a homenagem ainda é bastante desconhecida e também cercada de dúvidas.
Pois nunca se falou tanto no dito cujo. De tabu, quando as mulheres quase não comentavam no assunto e a elas era reservado o direito apenas de procriar, sem estar incluindo o prazer, o orgasmo virou quase uma obrigação. É só observar as revistas nas prateleiras das bancas. Oito entre dez revistas femininas (e até as masculinas) abordam o tema de alguma forma. O assunto vem sendo discutido mais amplamente pela ala feminina porque, convenhamos, os homens simplesmente não conseguem fingir o orgasmo. Já para algumas mulheres, ele continua sendo um mistério. O que, afinal, é o orgasmo feminino tão comentado atualmente?
O ginecologista e especialista em terapia sexual Francisco Carlos Anello dá uma explicação científica para a sensação: ''o orgasmo, tanto para o homem quanto para a mulher, é a ausência de oxigênio no cérebro. Para o homem, ele vem acompanhado da ejaculação, já a mulher tem sentimentos subjetivos''. E não adianta pedir definição para a amiga, irmã ou prima. Anello, que é pós-graduado em sexualidade humana, ressalta que cada orgasmo é diferente ''porque cada ser humano é diferente''.
Mas se para o homem é certeiro, já que a ejaculação está ali para provar que ''aconteceu'', para as mulheres as sensações que acompanham o orgasmo são bastante variadas e podem durar de milésimos de segundos a alguns minutos. ''Cada pessoa se comporta diferente'', salienta o ginecologista. Ele revela que algumas mulheres podem sentir tremores, dormências e até perceber uma maior mobilidade na região pélvica. ''Mas não existe uma regra'', afirma.
Algumas mulheres, no entanto, nunca sentiram o orgasmo, seja por problemas orgânicos ou emocionais. De acordo com o médico paulista, cerca de 20% a 30% das mulheres brasileiras sofrem de anorgasmia, que é a ausência de orgasmo. ''Problemas de má formação ou na produção de hormônios podem ser algumas das causas orgânicas, já os problemas emocionais podem acontecer por causa de um trauma, um estupro, uma relação mal resolvida, enfim, uma causa que só uma terapia pode apontar'', explica Anello.
E se algumas mulheres ainda resistem a esse tipo de terapia, o ginecologista defende que a terapia sexual não é nenhum ''bicho-de-sete-cabeças''. Neste tipo de terapia, a mulher vai aprender a se conhecer e conhecer a seu corpo. E, ao contrário do que muitas mulheres chegam a pensar, o terapeuta não vai tocar na paciente, mas ensinar alguns exercícios que levem ao caminho do prazer. ''Quando a mulher está tendo dificuldades para se relacionar e não se sente à vontade com a relação sexual, está na hora de procurar ajuda'', aconselha.
O fundamental no entanto é se conhecer e estar de bem consigo e com o parceiro. O orgasmo é consequência. É o que acredita a atriz e cantora Jana Mundana, de 28 anos. Ela desconhecia o Dia Mundial do Orgasmo, mas quando deu a entrevista para a Folha disse que ia se apressar para preparar algo especial para comemorar a data. Jana afirma que nas suas relações nunca precisou fingir um orgasmo para agradar o parceiro. ''Às vezes a gente não chega lá e tudo bem.'' E engana-se quem acredita que por ser atriz, fica mais fácil ''dar um jeitinho'' para não decepcionar o companheiro. ''Para a gente é até mais difícil, pois somos mais sensíveis'', revela a atriz paranaense.
Já para a estudante de jornalismo Márcia Luz, de 32 anos, é difícil encontrar uma mulher que nunca fingiu para agradar o parceiro durante a relação. ''Mas essa necessidade acaba quando você tem um relacionamento sério, em que você conhece o outro'', diz. Para Márcia existe uma certa ditadura do orgasmo, uma cobrança principalmente das mulheres para as mulheres. ''Na TPM (revista feminina mensal) desse mês tem umas dez páginas sobre esse assunto. Está todo mundo falando sobre isso'', comenta. Mas para ela, o fundamental é deixar a vontade de impressionar de lado. ''Para sentir prazer não precisa de malabarismos nem de grandes performances, precisa se conhecer e conhecer o outro'', acredita.
E de tão misterioso, o sentimento também acaba se transformado em arte. No Paraná, não faltam artistas que retratam temas sensuais (e sexuais) nas telas, como Edilson Viriato e Glauco Menta, para citar alguns. A artista plástica Leila Pugnaloni, que também reserva algumas telas para o tema, define o orgasmo como um ''exagero'', muito próximo da plenitude total. ''E inconscientemente, nós artistas, lidamos com esse conceito, com essa idéia'', revela.
Mas se nem todo mundo sabe que orgasmo tem uma data especial para ser comemorado e tampouco reservou uma surpresa especial para o parceiro hoje, os sex-shops curitibanos estão dispostos a mudar essa situação. O proprietário da loja de conveniências sexuais Muito Prazer, Jorge Belém, preparou uma vitrine especial para orientar os clientes desavisados. ''Nosso objetivo é que esse dia seja tão importante como o Dia dos Namorados, que é campeão em vendas'', vislumbra.

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