Uma pérola do cinismo contemporâneo apregoa que ‘‘clássicos existem para ser citados e não para ser lidos’’. Seja lá quem a tenha formulado, talvez seu autor estivesse pensando nos dias e noites que gastaria para folhear os volumes de A Comédia Humana, a suma literária do francês Honoré de Balzac (1799-1850).
Bem, neste mês em que se comemora o bicentenário do escritor, convém lembrar uma ou duas coisas sobre ele e sua monumental obra - a começar pelo lugar que ocupam na história da literatura universal. Aqui, vale repetir que a importância de Balzac para França corresponde ao que Shakespeare representa para a Inglaterra, Goethe para a Alemanha, Dante para a Itália ou Cervantes para a Espanha.
E isso é consenso, embora o renomado crítico norte-americano Harold Bloom o tenha excluído de seu controverso O Cânone Ocidental, em cujos capítulos listou o que julga serem os 26 escritores ‘‘obrigatórios em nossa cultura’’. Mas Balzac continua insuperável como observador social de sua época, a ponto do velho Karl Marx tê-lo adotado como fonte de consulta para escrever O Capital.
Há inclusive quem ressalte mais suas qualidades como historiador de costumes do que suas habilidades como artesão da linguagem, notando que o tema da influência do dinheiro na conduta humana jamais havia sido tão bem documentado como nas cerca de dez mil páginas que compõem A Comédia Humana. Balzac revelou ao mundo ocidental as consequências irreversíveis da Revolução Francesa de 1789.
Com rara perspicácia, descreveu o dia-a-dia da burguesia combinando tramas vertiginosas e uma galeria de personagens astuciosos que entram, saem e reaparecem ao longo de suas 90 narrativas. O ciclo batizado ‘‘Cenas da Vida Privada’’ constitui a maior parte da obra. É nele que se encontram os famosos ‘‘Ilusões Perdidas’’ e ‘‘A Mulher de Trinta Anos’’, de onde sairia a expressão balzaquiana para caracterizar a sedução de mulheres que usam em proveito próprio o fato de terem três décadas nas costas.
De mulher, aliás, o escritor parecia conhecer um bocado. Mesmo baixinho, gorducho e distante do padrão estético de beleza, ele conquistou várias duquezas e marquezas. Seus biógrafos não o perdoam. Balzac, segundo eles, era um interesseiro bom de lábia. Só se aproximava de mulheres que ostentassem algum título de nobreza.
Chegou a ser sustentado por Madame Berny, afilhada de Luis 16. Ao final da vida, casou-se com a condessa Eva Hanska. Não conseguiu levar outra atividade que não fosse a de escritor. Em todos os negócios em que se meteu, quebrou a cara e contraiu dívidas. Enquanto enfrentava a perseguição implacável dos credores, escrevia feito louco desovando um romance atrás de outro movido a litros de café madrugadas adentro.
Ninguém sabe direito quantos livros escreveu, já que muitos circularam com pseudônimos. Antes de reunir sua produção na coletânea A Comédia Humana, já tinha publicado novelas, cartas, contos, textos jornalísticos e peças de teatro. Ao planejar sua obra maior, reaproveitou farto material incluindo prefácios explicativos de novelas inacabadas e escritos de juventude.
No Brasil, A Comédia Humana foi lançada pela editora Globo numa série de 17 volumes, primeiramente entre os anos 40 e 50 e depois em 1989 - tudo sob coordenação de Paulo Ronái, que convocou poetas como Carlos Drummond de Andrade e Mário Quintana para fazer as traduções. A obra permanece um livro fechado para a maioria dos alfabetizados. Mas quem sabe agora - na esteira dos duzentos anos de nascimento do escritor a ser festejados no próximo dia 20 - não seja hora de virar a sua capa?

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